terça-feira, outubro 28, 2014

AUTO DA PORCA DO REGIME V


[As Aventuas do Santa Alcoveta] 

De óculos escuros e uma gabardine negra, SóCrash, o Santa Puta, encontra-se com o Armando, o Vara, na Pastelaria de Belém para avaliar os progressos no grande Golpe de Estado das Esquerdas em decurso, liderado pelo testa de ferro Costa. Vara cumprimenta-o entre dentes: 

— Então, pá, Zé, Santa Puta? 'Tás bom? E o nosso Costa, como é que a coisa vai? 
— Olá, pá, Armando! Nosso Costa, não. Meu Costa. E o meu Costa vai bem. Fez bem em ir falar de treta de Esquerda para entreter as Esquerdas, lá na taberna irrisória do LIVRE. Eh, pá, aquele Tavares está mortinho por ser ministro. Talvez chegue a chairman da MotaEngil. 
— Cuidado, pá, Santa Puta. O teu gajo continua a nada dizer de substantivo que ultrapasse a mesma lógica do Marinho e Pinto também para que qualquer eventual acordo, seja com quem for, se torne possível, nem que seja com o Diabo. Mas as ideias fazem falta, pá. 
— Ainda bem que falas do Diabo, Vara. Sabes quem foi o gajo que me mandou ter com ele? 
— Com quem? 
— Com o Diabo? 
— Sim, quem é que te mandou ir ter com o Diabo? 
— O filho da mãe do Melícias. Fiquei-lhe com um pó. E no entanto, gostava de um encontro com o gajo. Veste bem e usa bons sapatos e perfumes... 
— Pois, pá. Deste confianças ao padre camarada.... Mas esse nosso gajo Costa... 
— ... Nosso, não, meu Costa... 
— Ou isso, pá, Santa Puta, esse teu Costa não diz nada para além da utilidade que o nada tenha para o processo da tomada de decisões, dá para ver donde vem a sua autoridade política, não é de um carisma de líder visionário como tu, Santa Puta, que ele não tem e nunca terá... 


— Pois não, pá, Armando. Um gajo como eu só aparece de cem em cem anos... 
— Claro, mas esse teu Costa é de uma solidez pragmática que inspira confiança também por se anunciar prudente, conservador e conciliatório, a receita ideal para segundas figuras, tu eras a primeira!, braços direitos de príncipes, como tu, ou para regentes em períodos especiais de decadência das elites. 
— Tens razão, Vara. E sei que não dizes isso apenas para me agradar. Sabes bem que esse gajo, o meu Costa, é segundo, o meu segundo. Tirando a larica de dizer umas merdas a gritar no Parlamento, também me sinto confortável a fingir que saí da cena política, como o Padrinho Soares disse quando entrevistou o entrevistador do i, eheeheeeh. 
— Velho doido. O que o gajo não faz para não ser tão cortado, pá. 
— É maluco por dinheiro. O dinheiro aparece sempre. - Agora pergunto-te que farão as Esquerdas com um PS disposto a partilhar o eventual poder com elas, o PCP e o BE já nos mandaram foder e assim será pelos séculos dos séculos. 
— Esses nunca nos ajudarão. Já perceberam que quem maneja o meu Costa somos nós, tipos sem escrúpulos com a Esquerda na boca, que os liquidarão com campanhas bem montadas, esvaziando a professorada que se acoitou no BE e a cambada de idiotas que acredita na Igreja Comunista. Esses gajos já nos toparam, Armani Armando. 

— São racistas ideológicos, SóCrash, Santa Puta, e não se podem deixar contaminar, dependem do sectarismo fanático para conservarem a sua identidade. Por isso, Santa Puta, é que o teu Costa, o Costa possuído por ti, terá de ir ao refugo das Esquerdas e acenar-lhes com cenas, dinheiro, cargos... 
— E vai, Vara. Dei instruções meticulosas ao meu Costa para namorar os fragmentos mais irrelevantes, os grupúsculos que se originaram na ressaca da embriaguez inspirada pelo jovem Louçã, que conseguiu um feito muitos pensavam impossível depois de uma ascensão romântica e heróica, ultrapassar o PCP numas eleições legislativas... 
— Sim, mas só o conseguiu por causa do PS, porque foi a circunstância de se ter um Governo socialista apostado em reformas tão difíceis como aquela merda que encontramos para foder a cabeça dos professores e moer-lhes o juízo para nada, a cena da avaliação, juntamente com um clima de ódio furioso à tua pessoa pesporrente e altamente corrompida, ódio alimentado tanto pela Direita como pela Esquerda contra ti, Santa Puta, e que levou ao transvase de votos do PS para o BE em 2009, esses filhos da puta, votos esses que se iriam evaporar dois anos depois, quando o PEC IV foi rejeitado e a Direita veio arruinar o nosso legado de dívida e enriquecimento dos nossos amigos. 

— Olha lá, ó Armando, esses filhos da mãe estão a extinguir-se. E o meu Costa terá de enfrentar o problema dos restos dessa Esquerda, grupelhos como o LIVRE, que é o de continuarem a pensar como aquela Esquerda pensa... 
— Qual Esquerda, Santa Puta? 
— BE e PCP, pá, foda-se, Vara. Estás lento desde que saíste da mama dos Bancos. Esses grupelhos que o meu Costa quer juntar no redil do nosso regresso é na mesma uma Esquerda que vê no PS o seu principal inimigo precisamente porque vê no PS a sua única fonte de crescimento. São burros. O nosso eleitorado de centro não admite qualquer proposta da extrema-esquerda. 
— Pá, Santa Puta. Eu aí tinha cuidado. A Direita pode desesperadamente tentar refrescar a memória do Centro o que levará ao voto de protesto e haverá um número significativo de eleitores a castigarem o PS pela Esquerda, como em 2009. Aqueles gajos não se compram com uns robalos. Querem lixar-nos, mesmo que isso seja completamente inútil e trágico, quando a Esquerda pura e verdadeira, engordada pelo voto dos enganados, der o poder a esta Direita. 

— Pois, Vara, mas o meu Costa, enquanto regente e segundo aqui na hierarquia do Golpe de Estado Democrático das Esquerdas compreende bem o que fazer: o combate do Rui Tavares, que é um gajo fraquinho, que fez um discurso fraco, ambíguo e manhoso no Congresso do LIVRE, ou o combate da Ana Drago e do nosso Daniel Oliveira, antigas estrelas fulgurantes dos sonhos megalómanos de Louçã, vai seguir por dois caminhos. 
— Já sei. O habitual. Ficam à espera que venha do PS o capital eleitoral que lhes dê existência parlamentar. Por exemplo, o LIVRE ficou orgulhoso com a votação nas europeias e começou logo a extrapolar os números para um cenário legislativo. O filho da mãe do Tavares não foi capaz de reconhecer que esses votos tinham vindo quase todos do eleitorado socialista e que poderiam com a mesma facilidade desaparecer numas eleições a sério. 
— Exactamente, Aramando. Mas se esses caramelos, o Tavares, a Drago e o Daniel, enfrentarem a partir da Esquerda o sectarismo da Esquerda, BE e PCP, será nesse eleitorado que o LIVRE vai encontrar votos para acordos com o meu Costa, o que implicará uma revolução cognitiva e estratégica para esse tipo de campanha, se tiverem sucesso, não só ganharão peso eleitoral próprio como estarão a diminuir a representatividade do PCP e do BE. É essa a missão do meu Costa, tão segundo e secundário em face do meu brilhantismo. 

— Pois, meu amigo Santa Puta. Será esse, e não outro, o factor essencial para o desbloqueio da governação à Esquerda sem o BE e sem PCP, com estes partidos vampirados e esvaziados, e que permitirá eventuais alianças com o PS que o puxem para o lado Esquerdo do centro. 
— Vara, meu querido, temos um problema nesta conversa toda de Esquerda na Esquerda ao centro da Esquerda e à direita da Esquerda. 
— Qual é ele, meu camarada, minha Santa Puta? 
— O problema, Vara, é se nos acontece como na Escócia. 
— O quê? Uma votação maciça, uma mobilização total do eleitorado para escolher a Direita ou o PS e assim rechaçar as nossas pretensões de um Governo de Esquerda, camarada SóCrash? 

— Claro, Armando. Eu não teria controlo total sobre o meu Costa com um Bloco Central. O eleitorado vê o meu Costa com o Tavares, a Drago e o Daniel Oliveira e vai perceber a jogada. Efeito espantalho. Vamos ter o Jerónimo contra nós e o bicéfalos também. Vão dizer que aqui nós, pá, um gajo usa a Esquerda para chegar ao Poder para depois enriquecer os amigos. Que o que queremos é seduz estes idiotas ingénuos das Esquerdas com uns trocos e regressar à vidinha de 2011. 
— Caga nisso, Santa Puta. Temos a imprensa e as TV pelo nosso lado. Toda a gente é de Esquerda. Olha a sonsa da Ana Lourenço, a destrambelhada da Constança Cunha e Sá, olha o Sarmento e o Pacheco, o doido do Marques Mendes e o alucinado do Marcelo. 

— É, tens razão, Armando. Nem é preciso muito esforço. Temos estes animais de carga mediática a puxar por nós, ehehehehe 
— Estás a ver, Zé, Santa Puta. Vá dá lá muitos beijos meus no teu Buda, no teu Costa. 
— Assim farei, Armando. A propósito, conheces o Diabo... assim, pessoalmente?... A tua carteira de contactos, dizem, é um portento... Podias arranjar-nos um encontro. 
— Claro que sim, ZéCrash. Vou já combinar um encontro entre ambos. Atenção que ele já me garantiu que vocês são íntimos... 
— Eh, pá, que lisonjeiro, porreiro, pá. Olha, até me arrepio. Olha para a minha pele de galinha. Eu a pensar que intimidade, intimidade era mais Lula e Chico Buarque...

E foi assim que seguiu delicioso o ameno interlóquio entre o Santa Alcoveta e o seu amigo amicíssimo Armando, mil aventuras e cumplicidades que as gerações futuras jamais esquecerão.

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