segunda-feira, julho 31, 2006

A HIPATIA LACERADA




















Jazes,
já não gemes,
já não sopras,
e já não sangras.

Se te matámos
foi por esta bífida guerra maniqueia que travamos,
mulher cadáver, reduto tenebroso!
Abrir-te, fender-te, revolver-te as entranhas foi justiça suma,
foi justiça lapidar-te e que agora a alma se te evole,
evanescente marinha espuma
e no inferno se despenhe.

Onde pára a tua sedução apolínea,
agora de fronte despedaçada,
quebrados dentes, nariz afundado,
ó aberração fêmea?

Só mesmo pelo demónio te movias.

Diz-nos, diz a estas lâminas que te desmembram,
se continuarás o centro da Alexandria, urbe abjecta,
assim desfeita?
Diz-nos se agora de toda a terra virão os ilustres
só por te ver e ouvir, prodigiosa mulher amestrada
a papaguear matemática,
a filosofar aristotelismos, a ridicularizar
na mais rotunda e errónea retórica o martírio dos santos?

Olha para ti,
agora que se te seca o sangue nas curvas dos cabelos,
agora que os teus vítreos olhos se te embaciam perdidos
agora com esse corpo enegrecido e teus membros pendidos,
antecipação pacificada, festiva, desse bolor verminal, larvar,
que já te lambe.

Eras tão altiva,
tão cicerónica e pagã,
tão vaidosa e forte,
insubmissa,
sabias tudo, tudo te perguntavam e pedante respondias com a espada da tua língua...
tão bela e doce nessa voz certeira de Atena deusa impossível...
E agora morta, tu, mulher insulto!

Vê como a soberba do teu discurso
é agora somente a tua língua arrancada
e desta mão pendente.

Abominamos-te, Hipatia, não chega extinguir-te,
só o teres existido fede a demo
porque a tua impureza era resistires
à única Via pela torpe calúnia da equidistância.

Repara: Cristo triunfa por todo o lado, os homens mais sábios vergam-se-Lhe rendidos.
E tu? Por que O recusaste, sendo brilhante?
Como O negou a tua inteligência penetrante?
Por que Lhe resististe, se ninguém, nem império, nem reino, nem senhor, nem escravo, Lhe resiste?
De ti a memória será ténue, como a de todas as mulheres,
seremos nós os escribas machos da história toda.
Mas a Ele submetem-se-Lhe um a um, todos aderem à Via do Senhor.
Que fazias, perdida nesse amor perdido às disciplinas,
aos mecanismos astrolábios, beiços do Diabo,
desdenhando de haver n'Ele somente a salvação?

Louca!

Não te perderes como devias no Cristo é toda esta ira que te sangrou!

E foi pouco arrancar-te à vida como um cipreste ao solo rochoso,
e abrir-te, rasgar-te, macerar-te
(rotina de milhares de reses assim tratadas por sua carne e peles esticadas
pergaminho).
Hoje pereces tu, um dia os rolos
todos da maldita biblioteca
e do museu maldito
por arder, ressequidas ervas
no caminho.

sexta-feira, julho 28, 2006

Desauschwitzização da Tua Mão













Podemos parar por aqui?
Não bastou que o género humano apurasse a tortura
com que se arrancam unhas,
e dentes e dedos se cortam e línguas
para que a verdade jorre numa confissão rubra e negra?

Terá de cantar-se a melodia do hematoma outra vez?

Já não bastou a experiência da pele
com que manufacturámos abajours?
Não chegaram as mortes por fuzilamento,
por gaseamento,
por confinação em espaços menos dignos que esgotos?

Teremos de aturar as cirurgias bombistas também?

O que é que falta ao género humano em malfeitorias?
O quê, não se trata do género humano,
são só judeus e árabes engalfinhados, só um exemplo,
só uma amostra que não traduz o Havai-humanidade predominante?

Mas que se passa convosco e com essa gente?
Vós, que tendes toda a passividade do mundo, que tendes tempo,
e só vos recostais na caridadesinha assistencial e no mudar de assunto...
Eles, que amam mais o ódio filho da puta com que odeiam,
que a glória de um filho e uma mãe vivos?
A condição humana passou ao lado destes que insistem na brincadeira da guerra, tão imaginativos a reverdescer desertos e a plantar bananeiras e mangais na areia seca
mas sem ideias no jogo diplomático!
Como lhes é inconveniente vizinhos prósperos!
Os miseráveis vêem como única resposta
a prosperidade de fazer mais filhos que o inimigo!

Ó campeonato ridículo de partos e de baixas!
Ó género humano nenhum!
Peixe estragado com que fedes até ao inferno!

Se só ali se ressuscitaram mortos,
se só ali se curaram surdos e mudos e cegos de nascença,
se só ali se disse do amor, do perdão, do pecado, da imortalidade o que se disse,
está visto que era por ser especialmente impossível
qualquer paz radical, duradoura.

Ali, onde o mundo só poderá ser inviável assim como a humanidade.

E a Europa o que é que afinal quer ser,
depois de triplamente esventrada no século XX?
Somente a ética luxuosa e refinada
que se arrota de Paris e Berlim a todo o orbe subdesenvolvido,
mas sem compromissos com o próprio corpo.

Flácidos líderes! Flácido tempo!
Entre o asco ao sangue necessário (este futebol em fragmentação de esforços)
e a incrível abundância de tudo:
até das insolações e inundações inauditas
que asfixiam de taquicardia e desidratação
os que as guerras pouparam.

Joaquim Santos

segunda-feira, julho 24, 2006

Ao Subaproveitamento dos Meus Dias











A tua voz amplificou por mil
o que se me gritava dentro
e fiquei nu,
em osso
descarnado, vil,

moço.

Agora, envergonhado,
não ouso te olhar(-me)
entre os destroços de alma
quebradiços pelo chão,
como de batatas fritas

fatias.

Mas repuxo o meu brio,
sacudo-me o pó,
vou a fundo fazer
o reaproveitamento
dos meus

dias.

Joaquim Santos


Profecia













Um dia
serei pedra e óleo,
petróleo, gás,
e o mundo terá carbono para girar
êmbolo, motor, comboio,
só porque rugindo existi.

Um dia
pincéis finos varrer-me-ão, fóssil, a poeira
e os cientistas celebrarão um osso meu
ao vento no deserto mais que um nascimento
sapiens doutro bípede sobre a terra.

Um dia
palavrossauroparafrasearão o nome que me derem
e com ele escrever-se-á da dor, do amor e da fúria
e os meus dentes,
as mandíbulas ingentes com que abocanho
o que de morto encontro,
o que de vivo caço,
darão uma bela metáfora,
serão uma bela hipérbole
(nesta minha ferocidade
devoradora,
carnívora,
gigante,
veloz)
à palavra carapaça,
à palavra pele.

Joaquim Santos

domingo, julho 23, 2006

Líbano












Ó céu nocturno,
magna carta com textos de luz,
que esperamos ainda de ti?

«Obus».

E que leituras faremos dos sinais
ainda em ti inscritos?

«Malditos».

Joaquim Santos

sábado, julho 22, 2006

PADRE MIURA I

Tu devias ter endereço electrónico
porque assim lerias logo o que te tenho a dizer,
de que talvez nunca saberás.

(Ou pelo contrário, uma vez que os teus assistentes são tão bem informados, tão refinados murmuradores e fazedores de opinião, que logo se acercarão de ti nessa velha amizade de távola redonda ou convenção mafiosa, de gente iluminada nas estratégias e tácticas, psicologias e à-vontadinhas sobre ti, para te dizer: «Ele voltou a escrever!» «O quê?!» - respondes. Calas. Um mutismo negro ensombra a tua face. «Tendes um exemplar do seu 'pasquim'?» - perguntarás. Dir-te-ão que o seu 'pasquim' é o planeta inteiro, de Ateães a Miami, do Cruzeiro à Krasnoiarsk siberiana! Em todo o lado se poderá ler e compreender como e porquê um homem sofre; quem e porquê o faz sofrer!)

Mas, enfim, fora este sonho de abrangência planetária,
nada a fazer quando não se acredita em tecnologias
e se considera pernicioso o telemóvel, a 'interneta' e o multibanco.
Como é que ainda escreves com uma dessas veneráveis máquinas-de-escrever antigas, sonoras, tilintantes, pesadas? São tão armas de arremesso!

O ruído martelado, violento, de quando primes essas teclas tenho-o bem gravado no meu espírito por não ser só ruído, mas todo um mundo de associações, sobretudo más
porque te vi a expulsar de Casa toda a sorte de gente, de toda a forma,
e a redigir ofícios de dualidade de critérios,
de antipatia,
de uma exigência impaciente de requisitos
servidos com vozes de escárnio e vingança, a tua impune oportunidade de retaliação aos que não andam alinhados com o século XIX em que vives.

Casas, baptizas e enterras. Depois tens a marreta musculada dos teus critérios de aço, à prova da pessoa concreta, com rosto, que te apareça, para além da sua experiência humana, da sua história pessoal, do seu capital de riquezas interiores: levas mais em suprema conta os seus títulos universitários que doutoramentos em mãos calejadas e sobrevivência... cum laude.

Não vês que um homem,
enquanto cá está, acumula em primeiro lugar a maravilha de ser pessoa?
Por que é que só vês o currículo e já não vês a pessoa com um copo vazio na mão?
Atrapalha-te a epifania de um homem livre?
Não lhe darás a Água de Cristo e um sorriso acolhedor?
A porta estreita para ti terá de ser uma toca do rato
de onde raro saímos para arriscar o pecado,
o erro, a dor?

Acreditas tanto no último recurso da força
que passaste a anunciar o Evangelho da patada e da sapatada!
Ai os teus sonhos de luta corpo a corpo, não como Jacob com o Anjo,
mas com quem não gostas, com quem desalinha da tua ética elíptica
Neolítica ou do Cretáceo Superior!

Será que tens consciência da brutalidade com que revestiste a tua acção?
Ainda não reparaste na repelência que geras quando agrides,
quando abusas da tua posição e do conceito «autoridade»?
Não vês que andas a enfastiar os cordeiros do Senhor
com o cajado da tua intolerância, com esse vício fariseu segregador?

Tornaste-te no anti-Pai da parábola do Filho Pródigo, e tão ao contrário dele te tornaste,
que desdenhas e escarneces ainda mais de quem não conheces,
e expões ainda mais impudentemente, como quem aponta,
o que julgas defeitos ou erros de quem te lembras de assombrar
e em pleno sermão.

E vais-te a eles como quem não resiste à muleta rubra e ensanguentada!

Padre, quem foi que fez de ti um homem tão difícil, de feitio tão endurecido?
Quem te moldou essa porta abrutalhada que costumamos chamar "coração"
mas que em ti é como a alimária pontiaguda à solta na arena espanhola?
Por que há pessoas que te fazem espumar de fúria
e descablelar-te de indignação?

Nos teus sermões caóticos,
vociferados,
autobiográficos,
sem exegese, sem fogo de paixão agregadora,
respeitadora da liberdade de cada qual,
pensas obter o quê, acusando e desconfortando as pobres pessoas,
sempre em condições de enfiar barretes por não terem alternativas
perante o que insinuas delas?

Olha, cortei contigo. Retirei-te o poder de me desgostares por isso e pela colecção
de cromos do teu Mundial de Desprezol.
Falares em público e dizeres certas leviandades
tornou-se enevoares-me Cristo, neblinando-O de mim,
porque semeias rancor e pensamentos daninhos, impuros,
incompatíveis com o amor e a fé viva.

Já não posso estar disponível para ouvir-te
e tentar compreender-te nesse insano tratamento das pessoas como até aqui
por ser o teu discurso toda uma convocação de demónios à solta na agressão:
Falares é fazeres da divindade uma instância cobradora de impostos e, pior,
é estares sempre a pontapear o Zaqueu sofredor em cada um de nós e no cãozinho que um dia veio à missa.

Tu és dois e tens duas paróquias numa.
De sorriso babado, quando estás na sumptuosa capela
e de cenho carregado,
apressado,
rural,
sinusítico,
escarrante, quando na betesgal Igreja:
a tua autoridade é um martelo pagão,
mas não inócuo como o de S. João.
Esta tua dupla personalidade crucifica-nos.
Por isso padecemos.

Os filhos da igreja, os fregueses,
já são só os teus amigos ou os que te lisonjeiam,
já são só aqueles que mimoseias babadamente
e mesmo esses sentem-se é coagidos pela baba,
já são só os cavalos em que apostas
mesmo que te escoucinhem e defraudem
nas tuas ilusões elitistas e elitizantes,
brandidas para esmagares com oco
quem tu visas esmagar,
sobre quem visas triunfar.

Se te derem um pretexto, serás ainda mais brutal conforme afinal desejas.
Ouviste supinamente os moços dizer: «Não vás à missa. Manda foder o padre.»

Passaste-te.

Agora a tua ira queima domingo a domingo o juízo à juventude da igreja betesgal
num desejo insano de destruição, dissolução, desistência,
como se essa frase natural, cheia de personalidade e pecado
resumisse a zona e a gente
que apodas pejorativamente de «Jerusalém».
Perdoa e compreende.
Nem imaginas quantos ainda e pior o repetem
e não ouviste nem sabes na tua sorridente «Galileia».

A tua paróquia tem dois padres dentro ti.
Por isso precisamos de um terceiro que tome conta de nós,
desta vez com amor, sem violência, sem desmandos psicóticos, nevróticos,
de uma insustentável e injusta tensão sobre o povo.

(Será possível, Senhor Bispo, que possamos ser tratados melhor um dia?
Um dia que não tarde?)

Costumas dizer que: «Homem cortês, o diabo o fez».
Mas depois de ti só vale o oposto: «Homem descortês, o diabo o fez.»

E olha que dolorosamente requintado,
nossa coroa de espinhos,
nosso Padre Miura!

quinta-feira, julho 20, 2006

Anódino Anónimo

Podes vir à vontadinha a este blog postar comentários de anonimato acidental.
Podes vir vociferar, na tua ocultação livre e trapalhona,
que não gostas da música e não sei quê de cus e beijos:
saberei sempre quem és e de que dores padeces,
enquanto o mundo gira numa doçura completa
neste terrorismo amoroso e odioso
que é blaterar na língua
dos homens.

Há sempre nestas coisas os dentes cariados e nunca escovados
de meter nojo ao Planeta inteiro, embora com simpatia e justificações diplomáticas,
e, ora com bombas ora com blogues, temos todos as nossas guerras,
e limpamos o ambiente com subtis lixívias
éticas,
étnicas.

Mas, Anónimo, volta sempre
e se a pomada para os pés da tua opinião
(sábia e interessante como um directo com o Emplastro)
for mais uma vez emitida,
há sanitas de «bem-vindo»,
autoclismos de «põe-te à vontade»,
mictórios de «Senta-te. Queres uma bebida?».

Joaquim Santos

domingo, julho 16, 2006

Ovo Celeste Sem Casca

Há dias em que se mostra mais, em que quer ser, e é, o centro da sede.

Nesses dias, certos corpos ganham peso por si e, perdendo velocidade,
colapsam sob um arfante suor:
pedidas, as bebidas em lata nunca se apresentarão frescas
e o cubo de gelo estará ali no copo em obscenas cumplicidades com a palhinha
só por uma tórrida questão de sugestão gelada.
Se sabes, de verdade certa,
que a cerveja nunca estará semipétrea e glacial,
não a peças. Passa sede a sério para variar.
Bastem-te, alienígenos,
todos os odores corporais dos outros,
no Bus,
no metro,
na missa,
como incontornáveis testemunhas de Jeová,
a baterem-te à porta do olfacto,
coagindo-te à salvação pelo sovaco.
Na cidade, o ar é seco e, em plena praça,
lançando um olhar esquimó em todas as direcções,
à média altura, a paisagem ondula,
oscila, numa dança térmica, reverberativa.
Então não vás.
Joaquim Santos

sexta-feira, julho 14, 2006

Mulheranha

Faço como tu, fêmea humana,
quando entreteço os fios,
e fico imóvel, pendurada,
a aguardar paciente
a míope refeição alada.

O veneno não é veneno,
é sofisticada saliva
e um salto evolutivo:
digerir por fora
não é exclusivo aracnídeo.

Joaquim Santos

quinta-feira, julho 13, 2006

Blogobisbilhotice

O cemitério dos teus sentimentos traídos,
as cinzas fumegantes da tua depressão e descrença,
a morte da tua inspiração,
enquanto paradoxas uma longa e dolorosa página de diário,
a azia da tua transpiração desinspirada,
a tua dor de estômago,
o rompimento mais recente,
esse teu não poder esquecê-lo, não poder esquecê-la,
o teu cão,
a tua pomba,
o teu gato,
o teu papagaio,
a tua reunião de amigos com fotos giras
e o carpe diem de ter bebido e fodido e tudo o mais
em cada face,
o teu «hei-de vir cá mais vezes»,
o meu «hás-de, hás-de...»,
a tua mania,
o teu enigma,
as tuas férias, as tuas glórias, a tua música,
a tua poesia obsoleta,
verdadeira,
a tua vertente básica, primária no uso sapateiro da palavra, Zé Manel,
a tua dor de costas,
o teu coração partido e o teu cu exibido,
a tua pintura e a tua literatura magnolescentes,
as tuas rimas e o teu vasto e fiel público,
o teu apostolado vaidoso e presunçoso,
a tua imposturice, a tua lisonja, o teu fingimento
(que eu leio perfeitamente nas entrelinhas)
o teu romantismo e o teu tesão por popularidade,
o teu paganismo e ateísmo triunfantes, babados, sorridentes,
os teus comentários atabalhoados,
cheios de «ao lado»
ao que eu quis dizer.

O teu blog e o meu blog
esse coito, esse karma,
essa coima, esse drama.

Joaquim Santos

terça-feira, julho 11, 2006

Solitário Graal

Ontem conservaste-te imóvel enquanto te desenhava,
com o mais pequeno e estreito dos meus dedos,
uma estrada larga,
aquela de que te disse: «Por aqui é mais rápido por um Oásis mais perto».
Desenhei-ta com todas as árvores a ladeá-la,
pus à tua frente o delicioso plano inclinado que, à medida que avançássemos, nos permitiria a ambos
ver ao fundo o mar crescendo para nós.

Pus todo o meu entusiasmo e fervor nesse desenho.
Por essa estrada sopraria a brisa marinha mais perfeita
e nela ondularia o odor mais sublinhado do manso e rumorejante pinheiral, que inebria.
Por ela fora, seria com um amplo sorriso que o suor dos nossos rostos
passaria às costas das nossas mãos e delas gotejaria radiante no pó do caminho
num sal cadente nunca em vão.

Não quiseste.

O teu olhar emudecido devolveu-me gelo e indiferença.
O teu olhar era toda uma argumentação fechada já definitiva: «Não me parece que vá».

Eu já sabia, mas tinha de tentar não ter de ir só a essa espécie de Céu, mas contigo, convosco,
(porque 'tu' são muitos, estais perto de mim e não me acreditais, considerais o sangue, as lágrimas e o suor com que aprendi o caminho, apenas desprezível delírio e deixais-me só, entregue ao que sei).

Assim, é com os pés nus que vou só
ao meu Graal:
empreendo a travessia,
faço a subida.

E chegarei lá.

Joaquim Santos

sábado, julho 08, 2006

Mozart em Carne Viva

Sangrando, vais com alegria
a desenhar sinais novos na partitura:

no bolso, claves de nada;
na mente
Sol, Ré, Fá,
sementes
gloriosas de harmonia.


Joaquim Santos

sexta-feira, julho 07, 2006

AFRODITE CALIPÍGEA

A pedra de que te teces é aparência,
essa carne é verdadeira,
tem o sumo e a promessa derradeira,
das minhas mãos isentas de decência.

Milenar, eterna,
quantos olhos te possuiram,
quantas fêmeas te invejaram
essa alva,
suprema,
refulgente permanência?

Ver-te foi seres minha,
fora o martírio
criador de te gerar a golpes
e ir morrer
de morte prematura,
humana, divina, daninha.

Invicto

Arda embora,
seja calcado e toureado
pelo monstro da mentira,

ainda assim ressurgirei,
me reerguerei da cinza e darei luta.

Tenho no meu ser
a grega ou romana bravura inteira
tenho a minha alma enxuta,

a espada corpo a corpo do passado ousado,
disposta à morte,
exposta à lâmina,
por um pouco de justiça
no ardor da refrega feroz,

sangrenta e louca.

Joaquim Santos

M81

Lago de luz
Vinho, cachos, bago,
uva cósmica por espremer, a ser espremida,
no lagar negro
buraco vivo a que te agregas, M81.

Ver-te é toda uma Missa Cantada,
com emoção na comunhão,
ver-te é bem mais que a lenga-lenga maçónica,
arquitecta, relojoeira, de um maçon.

Joaquim Santos

quarta-feira, julho 05, 2006

Culinária

O passado não manda nada
e a tradição não conta. Se contasse,
éramos senhores do mundo, coisa que até somos
a fazer filhos em quantas raças há,
em quantos continentes
como se ser português fosse a miscigenação
em estado contínuo e puro: hoje no seio da humanidade,
sabe-se lá amanhã com extraterrestres,
desde que as fêmeas extra-apeteçam.

Outros civilizaram com a pose,
nós civilizamos com o pénis, com o corpo, apenas,
depois via-se. Não começa tudo pelos olhos?
Os olhos começam por ver a mulher,
o troféu.

Quando eles entraram por aqui dentro com canhões,
tivemos de morrer com paciência e resignação resistentes, mas desarmadas,
afogando-nos num mar de sangue ou num rio que era nosso,
depois pagamos-lhes a atrevida invasão libertária, imperial, bonapartista
simplesmente com paz,
paz inscrita nos nomes de milhares de emigrantes, no século XX, artilheiros apenas do trabalho,
blindados apenas às humlhações, chegados para ficar, para se misturar e para vencer,
amando, porque até pelos canhões do amor se ajuda um gaulês a ser gaulês.

Isto eles não fizeram, satisfeitos no seu reduto maravilhoso,
le-peniano, islamizado, xenófobo, desprezivo do diferente, desintegrado e tumultuado,
por isso estão a desaparecer à velocidade da língua.

Fromagges parfumes et champignons são, sempre foram, palavras de comer, digerir
e evacuar que é também o derradeiro fim da culinária mais excelente.

E a história ensina: toma lá, dá cá.
Vencer uma guerra pode demorar dois séculos ou duas meias-finais... três ou mais, se tivermos contra nós a mesma lógica subtil do poder, da manipulação subtil e imperceptível destas coisas de quem tem peso no futebol,
não está escrito é que não se vença.

Joaquim Santos

terça-feira, julho 04, 2006

Amor: Ordem de Despejo

Quando escrevem sobre ti, Amor,
todos são mentirosos.
Ninguém sabe o que és, quem és,
ou, pior, sequer se existes.
Dizem que te viram em Veneza,

que foi fácil encontrar-te
em Paris,
que estás à mão na Ribeira do Porto, à beira rio, ou em qualquer jardim...

Dizem que te sentem, que te querem, que te isto e que te aquilo,
e que vens a eles, se te chamam,
mas têm todos é vontade de se comover muito e largar cloreto de sódio
pelo canto do olho,
para parecerem sensíveis e bonitos com os olhos brilhando muito à luz fosca da aldrabice, palavras de gelatina.

Dizem que te têm na mão, basta astrologizar um pouco.
A lua aqui. Marte ali. Ali Vénus, Júpiter mais além...
É que no fundo não acreditam em ti, Amor,
têm todos é necessidade de se enganarem
para amansarem a pavorosa fera por dentro.

Porque tu não és Amor nem és nada se não me disseres aqui e agora que existes mesmo.

Não respondes? Estás aí? Ó Amor, meu filho da puta, responde.
Por que te calas? Por que tens de ser assim tão subtil e diáfano
como uma aparição transcendente, mas só para alguns? Não existes, cabrão,
mas finges muito bem e eu odeio fingimentos, abomino pantominices. Mostra-te lá, boi!

É por tua causa, dizem, que há muitos acidentes nas estradas
porque os que bebem de mais e querem prazer, bebés sôfregos à procura da teta farta

colada à ponta do nariz,
é a ti que procuram, procurando-te entre as pernas de alguém que, dando-lhes o miolo delas,
não se deram de todo e, não se tendo dado, te negaram e atraiçoaram, Amor.

Tu é que és um acidente, não podes ser levado a sério, não se pode acreditar em ti.

Dizem que por trás de qualquer crime há afinal quem te queira autopsiar no corpo de alguém ainda vivo e encontrar-te por dentro

como se encontra um fígado ou um rim em condições
de se comer. Não há um bisturi que te corte para que te nos mostres nu e sangrando? Só assim acreditaremos que existes, animal invisível.

Tens a puta da mania de ser difícil e até parece que ter-te há-de ser mais complicado que o Garcia escalar o Evereste, perdidos os dedos e o nariz de alguma vez afinal uma pessoa se pensar inteiro, coisa ilusória!

Por que tens de ser assim tão meloso, tão meigo e tão doce, tão emocionado e todavia
não existires, assim como, dizem também, Deus não existe, insistindo-se tanto na Sua não existência como se do tanto negar não resultasse a afirmação do que se nega?

Não gosto de emoções gelatinosas, perfeitas, amorosas de mais que os que não te conhecem usam para falar de ti e que depois representam no palco perfeitamente decente e luminoso da palavra, mentindo, e tu, que nem sequer és gente
para ser visto e existir, que dizem não passares de hormonas e enzimas à solta no organismo,

já serviste de explicação para as coisas boas na vida dos homens por tempo suficiente.

Põe-te a milhas que já não serves nem enganas e não adianta mudares de nome! Já te conheço.


Joaquim Santos

sábado, julho 01, 2006

Vltimatvm ao Tablóide

Como se mede a grandeza?
Como determinar o valor e a classe?
Será só músculo, será uma questão de civilização?
Será uma questão de peso imperial, requinte aristocrático e de riqueza?
Será uma questão de língua ou geografia?


A íntima monarquia da glória e da felicidade completas é íntima,
está toda por dentro,
só pode estar no interior de cada qual,
dentro de ti e de mim,
no seio do luso grupo em face dos saxões tão presunçosos:
é só aí que se ganha,
é só aí que, bem antes de acontecerem,
as vitórias foram possíveis.

O resto é ser uma ilha britânica doida
rindo doida e despreziva do mundo inteiro
mar.

Joaquim Santos