quarta-feira, fevereiro 20, 2013

CONTRA O CLIMA DE PRÉ-LINCHAMENTO

É de uma imbecilidade atroz esperar que a rasura dos direitos de um cidadão signifique mudança e revolução no sistema de representação português.
Naquele tempo, por mais que se insultasse José Sócrates, nunca parecia suficiente, nunca cansava, nunca perdia justificação e legitimidade, e sobretudo jamais suscitou piedade: a flor parisiense era um desafio ambulante e um show de treta quotidiana: no Parlamento, hostilizava e humilhava o PCP, provocava e rebaixava o BE, troçava dos sucessivos líderes falhados no PSD, cadáveres adiados que procriavam impotência e ridículo perante a dissensão e a perfídia no Partido. Esteve todo o tempo a preparar o Paraíso Pessoal, através de uma fuga. Comportou-se como a húbris em pessoa. Quando passamos fome ou não vislumbramos futuro, temos alguém muito concreto que explica grande parte dos nossos problemas nacionais e até pessoais. Hoje, dois anos depois, torna-se impossível olhar para os relvas com cara de passos e para os passos com cara de relvas sem alguma compaixão, sujeitos a estas manifestações inúteis e vesgas, intolerantes, sem nobreza, sem diálogo, capacidade de olhar para um ser humano por acaso político demasiado à mercê de uma pergunta [em vez disso enxovalhado], de um embaraço, de uma interpelação civilizada. Não gostar de um político dá pano para muitos textos, anedotas, comentários, mas persegui-lo pessoalmente destrói a luta por causas maiores, creio. Sei do que falo porque me enclavinhei contra um que só foi o que foi porque apoiado por mil cúmplices. Até porque por cada relvas que caia, há dois ou três Salgados que somam e seguem e pelo menos quatro Sócrates que agora mesmo, enquanto olhamos para o nosso triste frigorífico desnudo, defecam ouro com chocolate fumegante, boiando numa sanita perfumada de Paris. Deve ser por esta gloriosa realidade que os jovens jagunços do PS, os turcos, se batem. Toda a gente deveria perceber isto. 

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro Joaquim

Como referi em comentário a post anterior acho-o claudicante...

Acompanhei-o no merecido tratamento que outorgou a Sócrates e quejandos.
Mas esta rapaziada que ora ocupa o Poder também não merece perdão.

João Pedro

Anónimo disse...

Um gajo que tenha lido uma pequena parte do que já escreveste sobre Sócrates, só pode ficar espantado com as potencialidades da natureza humana depois de te ler neste novo registo...

Enfim....:)

MR