quinta-feira, abril 12, 2007

JOSÉ SÓCRATES: UMA ANÁLISE PSICODRAMÁTICA


Apareceu humilde e deferente.
Meteu no coração José Alberto Carvalho
e Flor Pedroso, enchendo a boca dos seus nomes,
multiplicando vocativos, tornados afectadamente afectivos à força de os repetir,
como os repetiu, noite de apóstrofes amiguinhas.
Parecia mais magro. Estava.
Simular perguntas e respostas,
olhares piedosos, alterações dramáticas do tom de voz,
insinuar insinuações, blasfemar blogosferas,
exige a grande abnegação de semanas recluídas, em frente ao espelho,
exigindo ao paciente acessor o apoio sôfrego: «Anda lá, faz-me montes de perguntas tramadas,
que é para isso que te pago principescamente.»

Além do mais, foram também semanas e semanas a clicar e a clicar,
saltando de blogue em blogue, corando muito, insuflando insónias Morais, mentiras albinas, Aroucas ideais,
a forma melhor de branquear a chico-esperteza-furão de sempre.
Nada a fazer quando a mancha em montes de óleo alastra imparável
e a inundaguação é um estrume que roça o queixo.
Não há entrevista que lave mais branco.
«Sr. Primeiro Ministro, não leve a mal, isto é apenas a humilde sugestão de um acessor,
mas lá, na nossa RTP que tão sabiamente monopoliza e domina,
evite a tentação de esganiçar a voz ou levantá-la como a um pregão na lota do peixe.
Lembra-se daquele post do blogue COMBUSTÕES em que se dizia que isso lhe ficava mal e nem se percebia para que servia?»
Ok. Isso, acessor! Bem tramado!
A hipocrisia, bem treinada é tramada,
e com montes de horas de simulação e montes de acessórias bocas acessoriais,
é uma arte.
A falsidade sempre assentou bem e até é necessária e útil,
quando se é poder. É preciso furar e ir furando.
Parecia envergonhado.
O corpo, os braços, as mãos abertas e os dedos muito juntos,
o sorriso tenso, até,
estavam dessincronizados, desafinados, com o pensamento.
Tinha aquele olhar longínquo de quem se radiografa e escrutina muito,
analisando-se retrospectivamente.
Ó sapiência de separar Portugal em postas:
a blogosfera especialista, informada, uma minoria solitária,
nada mais que ilhéus de verdade e sensacionalismo,
de conhecimento mais fundo, mas de ressentimento mais fundo ainda – posta rara de Robalo que ninguém come.
E a massosfera do povo cansado de manhã, à tarde e ao fim do dia,
esse atum vigoroso de braços, mas desinformado entre alegres iliteracias alarves.
O «Seu», o todo «seu» Sócrates, falou para esse grande cardume de carneiros
chamado povo português, um povo-atum, um rebanho acossado pelos cães do Partido Socialista, rosnando muito e mordiscando os flancos das rezes disciplinadoramente.
Por isso, Zeca Sousa, com toda a tranquilidade,
pôde representar inocências, nobrezas, exemplos e transparências
para as sardinhas assadas da vida, que é o povo nas mãos de estes cínicos maquiavélicos,
que salivam por uma boa maquia do poder.
O poder a todo o transe.
Não é difícil vender enganos ao povo-atum, embora seja a venda inútil a prazo.
O cardume popular tem uma grande intuição para mentirosos assim
como também para confiar em líderes que dêem pau,
que imponham respeito e restrições abusivas e absurdas,
é a vontade de cima e de fora que os vai ajudar a viver contidos
no grande eremitério nacional da qualidade de vida
fora de Lisboa e do Vale de Santarém.
Entre a rejeição de um bom mentiroso, implacável com o Dr. Lopes,
autêntica hiena parlamentar,
entre a rejeição imediata de um artista de topo do cénico cínico,
como este Zeca Socas Sousa,
e confiar num líder que dá pau,
o cardume arrebanhado de comodismos populares e enfadado do político feito,
encolhe os ombros,
hesita,
cala e consente.
Apareceu inquieto.
Tinha um show e o seu show mustinha de go onar.
Papéis.
Andou aos papéis.
«Foi há muito tempo.»
Não se lembrava.
Era tão espectáculo nunca mais os impostos baixarem!
Se os governos não tivessem a tentação, em época de eleições, do cunilinguus ao clitor-erógeno do povo com medidas suavizadoras das asperezas tornadas hábito,
seria tão talvez benéfico!
Não sabia se baixava. Se sim, nunca por eleitoralismo.
Acabou.
«Chega disto».
Há uns olhos abertos cada vez mais abertos num país de desinformados e preguiçosos a doer.
Não há lixívias fáceis como antigamente e a blogosfera,
tão unida na exigência acutilante de uma clareza cristalina,
é o completo choque tecnológico na língua e no cu dos Chico-espertos da vida!
A nódoa vai continuar.
As costas do Zeca Bacharel talvez folguem.
Talvez não.
Não importa.
Mendax supremo é o que diz nixoniano «I’m not a crook!» ou,
mas menos,
«I did not have sex with that woman»!
Ou ainda uma frase saudosa e bonita,
com olhos, de repente mais fechados,
vidradamente cândidos e humedecidamente cínicos:
«Blá, blá, blá, a minha transparência, blá, blá, blá, a minha nobreza,
o meu exemplo, blá, blá, blá, não temo tempestades!»
Mas dá-nos tempestédios!

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