sexta-feira, dezembro 20, 2013

MULHERES



Mulheres, indolentemente sentadas em caleches,
e cujos véus flutuavam ao vento, desfilavam junto de ti,
no passo firme dos seus cavalos,
com um baloiço insensível que fazia estalar os coiros envernizados.
As carruagens tornavam-se mais numerosas,
e, afrouxando de andamento a partir do Rond Point,
ocupavam toda a via.

As crinas estavam perto das crinas,
as lanternas das lanternas;
os estribos de aço, as barbelas de prata, as fivelas de cobre,
lançavam aqui e além pontos luminosos
entre os calções curtos, as luvas brancas e as peles
que caíam sobre o brasão das portinholas.

Sentias-te como que perdido num mundo longínquo.
Os teus olhos erravam pelas cabeças femininas;
e semelhanças vagas traziam-te à memória a Senhora Arnoux.
Imaginava-la, no meio das outras,
num daqueles pequenos cupés,
idênticos ao cupé da Senhora Dambreuse.

Mas o sol declinava,
e o vento frio erguia turbilhões de poeira.
Os cocheiros metiam o queixo nas gravatas,
as rodas punham-se a girar mais depressa,
o macadame rangia;
e todas as equipagens desciam em trote vivo a longa avenida,
roçando-se, ultrapassando-se,
afastando-se umas das outras,
depois, na praça da Concorde,
dispersavam.

Atrás das Tulherias, o céu adquiria a cor das ardósias.
As árvores do jardim formavam duas massas enormes violáceas no alto.
Os bicos de gás acendiam-se;
e o Sena, esverdeado em toda a sua extensão,
rasgava-se em ondas prateadas de encontro aos pilares das pontas.

1 comentário:

Adelino Ferreira disse...

Eu sou um pobre que do saber pouco sei.Escreves também Joaquim!