segunda-feira, setembro 16, 2013

NA PONTA DE UM CORNO

Até há poucos dias, Portugal parecia recuperar da valente sova macroeconómica que os últimos dois anos comportaram. Pendurados na ponta de um corno, índices como o desemprego sorriam sem parecer martelados ou sazonais. Agosto destruiu essa ilusão. Se há passos, são ténues, mínimos, embora em frente. A surpresa foi geral, mormente para aquelas franjas extremadas que fazem do derrotismo e do mal-fodidismo traves-mestras do combate político e da simplista dicotomia Esquerda-Direita a teoria automática com que se explica o desconcerto do Mundo: para esses, nunca nada está bem e por isso todas as boas notícias têm atenuantes que as transformam em más na mesma. Há eleições? Logo, os números estão ser maquilhados. Concedo a maré de mensagens positivas como espuma de conveniência para os partidos do Poder. Mas nada de dogmas. Se recuperámos, recuperámos como?! Graças a quê? A que milagre? Muitos apontam o turismo nórdico massivo por todo o País. Outros acrescentam que, além dele, temos recebido carradas de asiáticos e norte-americanos com dinheiro para gastar. O Banco Central Europeu parece não ter culpas nem inocências relativamente à ainda alta das taxas de juro, 7,4%, a dez anos para a dívida pública portuguesa nos mercados, apesar dos referidos sinais de recuperação. Preço da pueril crise de Julho? Talvez mais dias de sol, mais dias felizes, nos tenham levado a perder o temor de consumir e lá voltamos aos mínimos de sabor e dignidade, fazendo das tripas coração. Por exemplo, eu, que tenho testado viver segundo um minimalismo extremo, salvaguardando a minha felicidade espiritual e alegria de viver haja o que houver fora de mim, estive três dias em Viana, Ponte de Lima e Braga, sob algum mecenato de uma idosa rapioqueira por quem zelo. Os turistas eram bem mais que os autóctones, desfrutando dos nossos ares, das nossas vetustas pedras, bebendo nas tascas e restaurantes o nosso vinho e a nossa cerveja, olhando com gula as nossas paisagens, gargalhando e convivendo sob um sol audaz de churrasco. O nosso sol. Gente de todas as idades. A mesma coisa no meu Porto, que percorro, sentindo comovido cada ruela sob os meus passos, sob o meu tacto. Os dias frios e sombrios aprestam-se e logo se verá a cor global deste ano. Acredito que algo de bom sucedeu, no meio de tanto sofrimento, que isso ficará patente e poderá ser argumento ao negociar. Porque a dívida é insaciável, exigem-nos ainda mais cortes que lhe garantam a pagabilidade pelos anos advenientes. O serviço da dívida é quem mais ordena. Paira no horizonte mais retracção e angústia. Porém, sem fé não há futuro. Nada mais cancerígeno e tóxico que excesso de pessimismo e a exposição ao enxerto de porrada da realidade. Enfronharmo-nos nela, suprema estupidez. Há sempre esperança na ponta de um corno.

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