BRUXULEIA FLÉBIL AMOR NESTA HORA

Um amor forte, fraco, flébil, denso, por cada criatura
bruxuleia nesta hora cá dentro. Outros disputem oleodutos,
territórios novos da nova ganância, que em mim um amor forte,
nesta hora cinza para mim,
bruxuleia em áureo filão por cada formiga,
por cada pássaro perdido,
pelo ventre azul dos aviões que passam
e onde eu não estou.
lkj
Vêm do trabalho, pela tardinha, mulheres empregadas
nas casas de quem lhes paga. Usaram lixívia, usaram sabão,
esfragaram mármores, castigaram o chão.
Passam requebradas, alquebradas, diante do meu nariz
que as plasma e pasma e ama.
lkj
O dia morre, róseos horizontes e amarelos longínquos beijam a tarde de silêncio
e elas passam, uma a uma, com as sacas plásticas de décadas passadas,
com a carne, os ovos, alguma fruta, pouca, o suor sublimado na casa das outras,
e passam esforçadas, um ou dois filhos, contas e mais contas por pagar,
depois do trabalho fora, novamente o trabalho do lar em dose esmagadora,
lá em casa, depois da casa das outras.
lkj
E descem aqui em frente, a rua é larga,
descem, passam, naquela obesidade de inchaços e dores nas pernas
sempre abertas. A saia pelos joelhos. O tecido grosso. A malinha vulgar.
lkj
Meu coração tem uma chama que bruxuleia de amor por cada criatura.
Essas mulheres, que transportam o peso de Portugal inteiro
e vieram do século passado, .
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