ABAIXO A BUSCA NEURÓTICA DO RASGO PELO RASGO
«Caros Joaquim e Groink (que eu gosto de ler): é interessante o que o maldito pudim informe de Troufa nos proporcionou. Tem este 'post' razão — inteira razão — acerca dos variadíssimos "cavalos mortos" que pela Arquitectura (e não só) pastam ainda como fantasmas. Ghery, nos anos sessenta junto com Ejduk e Meyer, fez e projectou várias coisas brancas e rectilíneas; veja-se no que veio a dar, por fim. Para mim o tipo enjoa-me; e é uma espécie de panaceia para toda e qualquer instituição do mundo que pretenda "Um Museu de Arte Moderna ou Contemporânea". O seu método consiste, segundo calhandrices pouco credíveis, em deformar e pontapear maquetes de coisas direitas, afim de obter a 'ideia'. Ora porra para todos estes vígaros: não gosto de receitas apalhaçadas, sejam elas caras e revestidas a placas de titânio ou baratas e revestidas com chapadas atalochadas de reboco pintado (mais à portuguesa). Originalidade: Siza Vieira, passada a interessante e inteligente (para a época) fase da arquitectura do tipo "inquérito à arquitectura popular em Portugal" e do "regionalismo", amargou algum tempo num deserto de encomendas — até que se relançou, e bem, num repescar do Expressionismo Alemão dos anos 20; e parecia nem querer ocultar as influências — Bruno Taut, Hugo Haring, Hans Sharum — recuperando formas maciças, estranhas, 'puras' mas deformadas, "ferros de engomar" postos ao alto, etc. Evidentemente que a Obra dele é mais do que isto; muito mais. E que tudo se gasta e passa de moda; cada vez mais e mais depressa. A "Arte", hoje, tem de competir diariamente com rapidíssimos abastardamentos, apropriações indevidas e com a publicidade: não há como resistir e a Arte não resiste - seja lá o que for que "Arte" signifique — e esvazia-se. O Gótico francês e alemão (e mesmo britânico) cumpriam, num constante desafio, a perseguição a um objectivo impossível: edificar a Nova Jerusalém, a promessa aos fiéis do Céu na Terra. O nosso Gótico sempre foi pobre e mais dado a deitar-se do que a elevar-se até aos píncaros — tendo adoptado por vezes a casca tosca do Românico que era mais escuro e mais barato. A cada macaco seu galho, mas não desistamos de projectar e edificar bem e de forma equilibrada: daí virá mais vital e facilmente o rasgo do que a busca neurótica do rasgo pelo rasgo. Num tempo em que pouco há a dizer, muito se escreve sobre edifícios e obras sem significado. Detesto este tempo em que se defende e procura permanentemente a bizarria e o excepcional e os vitelos com duas cabeças e os cavalos com cinco pernas (pentapérnicos). Melhor seria que os arquitectos nacionais fossem profissionais competentes, bons técnicos e tivessem uma boa qualidade média no que respeita a desenho, sem se deixarem impressionar constantemente por vedetas.» Besta Imunda
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