CONTRA A RETÓRICA COITADINHA

«Curioso como se olha para um caso e se tende generalizar ou a culpar tudo o que não sejamos nós. Comecei a trabalhar em 1989. Ainda na faculdade deitei a mão a um estágio numa área que nada tinha a ver com a minha formação. Aprendi. Recebia uma verdadeira miséria, mas pelo menos ajudava o meu pai nas despesas que suportava para me ter a estudar em Lisboa. Comecei a achar que podia fazer mais algum dinheiro com o que sabia. Assim foi. Estive a recibo verde durante dois ou três anos. A levar calotes. Fui notado e fui trabalhar para outra empresa por uma miséria. Mas não levava calotes. O curso começou a sofrer. Não o acabei. Mas aprendi o suficiente para ser notado por uma multinacional. Fui trabalhar para essa empresa 3 meses depois de ter casado. 9 meses depois veio o 1º filho. Passámos necessidades. Muitos meses o dinheiro chegava para o essencial. Mas aprendi mais. O meu salário melhorou um pouco. Em 9 anos passei a ser reconhecido como uma autoridade na minha área. Fui convidado para outra empresa multinacional. Por muito mais salário. A minha mulher também progrediu na carreira. Veio o segundo filho. Durante 3 anos esteve longe da família. Eu fiquei com o mais velho, ela com a mais nova. 400Km, 500Km 140KM. Ora ficava mais longe ora ficava mais perto. Víamo-nos de 15 em 15 dias. Veio a necessidade e uma casa maior. O dinheiro já nos permitia poupar alguma coisa. Mudei de novo de empresa com uma melhoria salarial. O meu tempo é vendido caro e os clientes não o dão por inútil. Não fiz crédito ao consumo e comprei uma TV de LCD quando elas ficaram baratas. Não contrato pintores para pintar a casa. Pinto-a eu. Gasto uma parte do que tenho. Não o que não tenho. Pago impostos por mim e para que os outros tenham algo mais. Porque também pago o seguro de saúde e a escola dos filhos. Sai-me do pelo. Não tenho a licenciatura e trabalho há 22 anos. Estou casado há 20 anos e feliz. Tenho um filho que entrou para o curso que quis. Sempre foi bom aluno e sempre foi apoiado por nós. Tenho uma filha que vai pelo mesmo caminho. Há muito tempo que lhes digo que considerem trabalhar no estrangeiro. Para se valorizar. Sou bom no que faço e não sou eu que o digo. Chegam-me licenciados sem capacidade para eu orientar, sem chispa, com ambição mas sem esforço. Só ambição. Mas chegam cheios de si com um diploma de merda. Com um mestrado em merda nenhuma. Eu sou o mau. Eu nem tenho uma licenciatura. Eles são os coitadinhos. Eles acham que por terem uma licenciatura têm direito a ganhar o mesmo que eu. Não sabem falar, não sabem escrever. Olhamos para os olhos e vemos bem lá no fundo a merda dum iPhone 4S e dum iPad 2 no meio dum deserto. Se me visse sem emprego cá, iria imediatamente para fora. As minhas capacidades são pretendidas em todo o lado e pagam bem. Não tenho 25 anos não tenho medo de aprender nem tenho medo de sacrifícios. Já os fiz. O que eu não faria era ficar a lamentar-me por ser um desgraçadinho sem tentar tudo por tudo para ter uma vida decente. Feitios... As escolhas que fazemos determinam como somos e em grande medida como é a nossa vida. Eu terei feito muitas escolhas certas. Será isso?» Anónimo

Comments

JFade said…
O meu aplauso!
Aposto que este anónimo também se não revê na "Parva Que Sou" dos Deolinda.
Miguel said…
Muito bem! Excelente citação. A minha resposta seria: é preciso aproveitar as oportunidades. A vida é lutar, lutar e lutar. Por ti, pelos teus filhos, pela tua felicidade. Sempre aprendi que as coisas conquistam-se, não se dão. Se calhar foi por usado (sim, nos anos 90), durante parte da infância, uma retrete de madeira como casa de banho e uma bacia de plástico por banheira. Cresci a aprender (a ver) o meu pai a lutar para dar o que de melhor podia aos seus filhos . A pobreza não nasceu hoje. Felizmente, hoje, são tempos longínquos, mas não me esqueço deles. Também já eu trabalhei a recibos verdes (e hoje estou a contrato), também eu continuo a estudar e a aprender todos os dias.

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