DECAMERON — FREI ALBERTO DE IMOLA II
»Houve em Imola, virtuosas senhoras, um homem de vida depravada e corrupta, chamado Berto della Massa. Os seus ultrajes feitos, muito conhecidos pelos habitantes de Imola, a tanto o conduziram que já não havia em Imola quem acreditasse nele, falasse mentira ou verdade. Ao aperceber-se de que os seus ardis já não eram ali aceites, desesperado, mudou-se para Veneza, cidade que recebe toda a imundície, e lá pensou em encontrar outra maneira de praticar a sua malvadez como ainda não fizera noutra parte. Como se o guiasse o remorso da consciência pelas malvadas acções cometidas no passado, mostrando-se colhido por uma extrema humildade e tornando devoto mais que nenhum outro homem, fez-se frade menor e escolheu o nome de Frei Alberto de Imola. Com aquele hábito, começou a dar aparências de vida austera, a louvar muito a penitência e a abstinência e nunca comia carne nem bebia vinho quando não encontrava que lhe agradasse.
»Não houve ninguém que descobrisse que ele, de ladrão, de rufião, de falsário e de homicida, repentinamente se transformasse num grande pregador, sem por causa disso abandonar os citados vícios quando às ocultas os podia praticar. Mais do que isso, fez-se padre e no altar, ao dizer missa, era sempre visto por muita gente a chorar a paixão do Salvador, como homem a quem eram fáceis as a lágrimas quando queria. Em breve tempo, com as suas pregações e as suas lágrimas, soube de tal maneira captar os Venezianos que se tornou fiduciário e depositário de quase todos os testamentos, guardador do dinheiro de muitos, confessor e conselheiro da maior parte dos homens e das mulheres. Deste modo, de lobo tornara-se pastor e a sua fama de santidade por aqueles sítios era tão demasiada que nunca a tanto chegou S. Francisco de Assis.
»Ora aconteceu ir com as outras senhoras confessar-se a este santo frade uma dada palerma e estúpida que se chamava Dona Lisetta da ca’Quirino. Era mulher de um importante mercador que tinha saído com as galés para a Flandres. Como veneziana que era, tratava-se de uma pessoa fútil. Ajoelhada aos pés do frade, depois de lhe ter falado de alguns dos seus factos, Frei Alberto perguntou-lhe se ela tinha algum amante. A dama respondeu-lhe de mau modo: ‘Ora senhor frade! Não tem olhos na cara? Parecem-vos as minhas belezas iguais às daquelas? Amantes de mais podia ter eu se quisesse, mas as minhas belezas não são para o amor de qualquer um. Quantas encontrais vós cujas belezas sejam assim como as minhas, que até no paraíso seria bela?’ E continuou a falar tanto da sua beldade que dava maçada ouvi-la. Frei Alberto percebeu imediatamente que ela cheirava a estupidez e, parecendo-lhe que era terra para cavar com o seu arado, logo ficou extremamente apaixonado por ela. Mas guardou para tempo mais oportuno as lisonjas e, a fim de se mostrar santo, começou daquela vez a repreendê-la e a dizer-lhe que aquilo era vaidade e outras coisas que ia inventando. A dama disse-lhe que ele era muito bruto e que não sabia distinguir uma beleza de outra. Então Frei Alberto, não querendo irritá-la demasiado, acabou a confissão e deixou-a ir-se embora com as outras.

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