DECAMERON — FREI ALBERTO DE IMOLA IV

»Frei Alberto, pensando que naquela noite teria que fazer de cavaleiro e não de anjo, começou a revigorar-se com bolos e outras coisas para que não tombasse facilmente do cavalo. Obtida a permissão, quando a noite chegou, dirigiu-se com um companheiro a casa de uma amiga sua onde, de outras vezes, fizera o ponto de partida quando ia correr atrás das jumentas. Quando achou ser tempo, dirigiu-se disfarçado para casa da dama e, depois de entrar, mascarou-se de anjos com os arneses que trouxera. Depois subiu e entrou no quarto da dama. Ao ver aquela figura branca, ela caiu de joelhos em frente. O anjo abençoou-a, ergueu-a de pé e fez-lhe sinal de ir para a cama. Fê-lo ela bem depressa, desejosa de obedecer, e o anjo deitou-se depois com a sua devota. Frei Alberto era um homem de bela figura e robusto e iam-lhe muito bem as pernas com a pessoa. Assim, achando-se com Dona Lisetta, que era fresca e delicada, e fazendo-lhe carícias diferentes das do marido, muitas vezes durante a noite voou sem asas, declarando-se ela muito feliz. Além disso, falou-lhe de muitas coisas da glória celeste. Depois, como se aproximasse o dia, preparou-se para o regresso, foi-se embora com os seus arneses e voltou para junto do companheiro, ao qual, para que não tivesse medo de dormir sozinho, a boa dona da casa fizera amorosa companhia.
»Depois de jantar, a ama fez-se acompanhar para ir visitar Frei Alberto. Deu-lhe notícias do anjo Gabriel, do que lhe ouvira sobre a glória da vida eterna e de como ele fizera, acrescentando ainda mais espantosas fantasias. Declarou-lhe Frei Alberto: ‘Senhora, não sei como estivestes com ele; apenas sei que, esta noite, o anjo veio ter comigo, eu dei-lhe o vosso recado e ele subitamente levou a minha alma para o meio de tantas rosas e de outras flores como por cá nunca ninguém se viu e demorei-me num dos lugares mais aprazíveis que jamais existiu, até esta manhã de madrugada. O que se passou com o meu corpo não sei.’ ‘Eu digo-vos ― exclamou a dama ― o vosso corpo esteve toda a noite nos meus braços com o anjo Gabriel. Se não acreditais em mim, pois reparai debaixo do vosso mamilo esquerdo onde eu dei um beijo tão grande ao anjo que o sinal vos há-de permanecer durante vários dias.’ Disse-lhe Frei Alberto: ‘Então farei hoje uma coisa que já não faço há muito tempo: vou despir-me para ver se falais a verdade.’ Depois de muito papaguear, a dama voltou para casa, onde, sob a figura de anjo, recebeu depois muitas vezes a Frei Alberto sem nenhum impedimento.

        »Até que um dia aconteceu estar Dona Lisetta com uma sua comadre discutindo ambas de belezas. Lisetta, para colocar a sua à frente das outras, e como mulher de pouco sal na cabeça, declarou: ‘Se soubésseis a quem agrada a minha beleza, realmente não falaríeis assim das outras.’ A comadre, desejosa de ouvir por conhecê-la muito bem, disse: ‘Senhora, pode ser que faleis verdade; todavia, não se pode mudar de opinião tão facilmente, não sabendo de quem se trata.’ Então a dama, que pouca inteligência possuía, respondeu: ‘Comadre, isto não se devia contar, mas o meu entendimento é com o anjo Gabriel, que me ama mais do que a ele mesmo e diz-me que sou a mulher mais bonita que há no mundo e arredores.’ A comadre sentiu vontade de rir, mas conteve-se para a deixar falar mais e disse: ‘A fé de Deus, senhora, se o anjo Gabriel é vosso entendimento e vos diz isso, com certeza que é assim. Mas eu não pensava que os anjos fizessem tais coisas.’ ‘Comadre ― retorquiu a dama ―, pelas chagas de Cristo, estais enganada! Faz melhor que o meu marido e diz-me que isso também se faz lá em cima. Mas como eu lhe pareço mais bela do que todas as que estão no céu, apaixonou-se de mim e vem encontrar-se comigo muitas vezes. Estais a ver agora?’

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