DECAMERON — FREI ALBERTO DE IMOLA V
»Depois de deixar Dona Lisetta, pareceu à comadre que, mil anos que vivesse e onde quer que se encontrasse, havia de rir-se daquelas coisas. E, reunida numa festa com um grande agrupamento de mulheres, contou-lhes a história em pormenor. Aquelas mulheres contaram a história aos maridos e a outras mulheres, estas contaram a outras, e assim, em menos de dois dias, toda a Veneza a conhecida. Entre aqueles a cujos ouvidos a história chegou estavam os cunhados dela, que, sem dizerem nada, tomaram a decisão de descobrir o tal anjo e de ver se ele sabia voar, pondo-se durante várias noites à espreita. Sucedeu ter chegado aos ouvidos de Frei Alberto alguns ecos do facto. Assim, tendo ido uma noite repreender a dama, mal se tinha despido, logo os cunhados dela, que o tinham visto chegar, correram à porta do quarto para a abrir. Quando os ouviu, e pensando o que se tratava, Frei Alberto levantou-se e, por não encontrar outro refúgio, abriu uma janela que dava para o grande canal e dali atirou-se à água. A água era bastante funda e ele sabia nadar bem, de modo que não lhe aconteceu mal nenhum. Nadou até à outra margem do canal e imediatamente entrou numa casa que estava aberta, pedindo a um homem que lá estava dentro que lhe salvasse a vida, contando as suas mentiras a propósito do facto de estar nu. O bom homem, levado pelo dó e como precisava de ir à vida, deitou-o na sua cama e disse-lhe para ficar ali até ao seu regresso. Fechou-o lá dentro e foi tratar dos seus negócios.

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