DECAMERON — FREI ALBERTO DE IMOLA VI
»Entretanto, os cunhados da dama tinham penetrado no quarto e descobriram que o anjo Gabriel, embora tivesse deixado ali as asas, levantara voo. Sentindo-se vexados, chamaram grossos nomes à cunhada e acabaram por deixá-la desconsolada, regressando a casa com os arneses do anjo. Entrementes, o dia clareara e, encontrando-se o bom homem no Rialto, ouviu ele contar como é que o anjo Gabriel fora deitar-se com Dona Lisetta e, descoberto pelos cunhados, se atirara por medo ao canal, não se sabendo o que lhe tinha acontecido. Logo o bom homem concluiu que devia tratar-se do tal que estava na sua casa. Voltou para lá, identificou-o depois de muitas histórias e combinou com ele que, se não queria que o entregasse aos cunhados da dama, lhe mandasse vir 50 ducados. Assim ele fez. Como depois Frei Alberto desejasse sair daquela situação, o bom homem disse-lhe: ‘Não vejo outro modo a não ser que aceites o seguinte. Fazemos hoje uma festa à qual cada um leva um homem ou mascarado de urso ou de selvagem, ou desta ou daquela. Chegando à Praça de S. Marcos, faz-se uma caça, com a qual a festa termina. Depois cada um vai-se embora para onde quiser com o homem que trazia. Se quiserdes mascarar-vos de alguma dessas maneiras antes que descubram que estais aqui, poderei levar-vos para onde quiserdes. De outra maneira, não vejo como possais sair daqui sem vos reconhecerem. Os cunhados da dama, convencidos de que vós parais aqui por estes sítios, mandaram pôr sentinelas em todo o lado para vos agarrarem.’ Apesar de custar muito a Frei Alberto ir daquela maneira, deixou-se convencer pelo medo que tinha dos parentes da dama e disse ao bom homem aonde queria ser conduzido e que pouco lhe importava o disfarce para ser levado. O homem untou-o de mel, cobriu-o de penas bizarras, pôs-lhe uma corrente ao pescoço e uma máscara na cabeça. Colocou-lhe numa das mãos um grande cajado e na outra dois grandes cães que trouxera do matadouro e mandou alguém à frente a apregoar que, se quisessem ver o anjo Gabriel, fossem à praça de S. Marcos. Foi esta a lealdade veneziana. A seguir, passado algum tempo, levou-o para a rua e fê-lo caminhar à sua frente, indo ele atrás a segurar-lhe a corrente, com grande rumor de muito povo, que perguntava: ‘Quem será, quem será?’ Deste modo o conduziu até à praça, onde se juntou com a multidão infindável, entre os que tinham vindo atrás e os que, por terem ouvido o pregão, afluíram do Rialto. Quando o homem lá chegou, atou o seu selvagem a uma coluna num lugar proeminente e elevado, fingindo estar à espera da caça. As moscas e moscardos começaram a causar muitíssimo incómodo ao frade, todo ele untado de mel. Mas quando o homem viu a praça bem cheia, fingiu querer soltar o seu selvagem e arrancou a máscara a Frei Alberto, exclamando: ‘Senhores, uma vez que o porco não vem à caçada e esta não se faz, e para que não tenhais vindo em vão, quero que vejais o anjo Gabriel que desce do Céu à Terra durante a noite para consolar as damas de Veneza.’ Mal a máscara foi tirada, logo toda a gente reconheceu Frei Alberto. Todos se puseram num grande alarido, chamando-lhe os mais injuriosos nomes e as piores coisas que jamais se disseram a um biltre. Ao mesmo tempo, atiravam-lhe para cima diversas imundícies. Assim o mantiveram muitíssimo tempo, até que, por acaso, a notícia chegou ao conhecimento dos outros frades. Acorreu ali um grupo de seis, meteram-lhe uma capa sobre as costas e levaram-no para o convento, onde o encarceraram. Pensa-se que tenha morrido depois de passar uma vida miserável.
»Assim, aquele que era tido por bom, e por isso não lhe era imputado o mal que fazia, atreveu-se a fazer de anjo Gabriel. Acabou por ser transformado num homem da selva e, depois de insultado como merecia, durante longo tempo chorou sem resultado os pecados cometidos. Queira Deus que o mesmo venha a acontecer a todos os outros como ele.»

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