EMENTA IDEOLÓGICA LIBERAL TEM COSTAS LARGAS
Os portugueses não sabem indignar-se. Quando tentam indignar-se, falham rotundamente. Indignar-se parece só estar ao alcance dos gregos, dos ingleses e dos franceses, que se indignam como ninguém, com pedras levantadas da calçada, os molotov atirados sem remorsos, com o irromper pela fachada vítrea de um banco sob o clarão de um incêndio ou o brilho esgazeado de uma turba possessa, presença moderna de novas bacanais sem animal vivo que se persiga e coma vivo. ao mesmo tempo que tudo desconhecemos acerca do que seja indignação, não se pode dizer que estejamos conformados. Inconformados é como estamos, mas o cansaço mental da nossa indignação inexpressiva, calada, remordida, criou um mal difuso que se espraia em pequenos ou médios delitos criminosos, que todos os dias constatamos erectos nos jornais, o pior dos quais-delitos se corporiza na chamada violência doméstica. Obviamente, somos agora milhões a concluir que a culpa terminal de se ter chegado a esta situação é de de José Sócrate: é instintivo e evidente assacar-lhe a responsabilidade pelos seus seis anos de desgovernação. Eles conduziram Portugal à falência, precipitando, em poucos anos, uma tendência de entropia económica iniciada pela misericórdia social atávica de Gutterres e todas as decisões perdulárias então tomadas. Não somos um País riquíssimo, mas se fôssemos um País menos corruptíssimo, custar-nos-ia infinitamente menos a pastilha auteritária presente, como se Pedro Passos Coelho, e não o Partido Comunista, beneficiasse do quanto pior, melhor, a fim de implementar esse ir além da Taprobana dos Cortes, da Austeridade e dos demais apertos previstos. Passos não é santo nenhum, mas é preferível um excedente de dois mil milhões de euros, é preferível haver cortes nos subsídios do que a mais pequena das consequências e surpresas desagradáveis ao longo dos meses de 2010 e inícios de 2011, com sucessivas derrapagens no défice. E, sim, Sócrates representou o último e derradeiro rapar do Erário, um despesismo deslumbradista, onde o que se cortava a professores, médicos, enfermeiros, magistrados, militares, se engordava em propaganda, em ajustes directos, em amiguismos com empresas amigas e escritórios de advogados amigos e amizades muito socratistas e socialistas, cujo amistoso poço sem fundo mal se começa a vislumbrar, dado o alargamento de uma clientela vastíssima e consolidadíssima. Depois da traição passos-coelheana de quanto fora prometido nas eleições, o que se espera dele é, ao menos, resultados palpáveis, elogiados internacionalmente, nas contas públicas e a devida frugalidade na ocupação dos lugares do Aparelho de Estado. Cabe a este Governo provar-nos que os desperdícios e gorduras de que o socratismo não abdicava não são os nossos ordenados, nem os nossos cuidados de saúde, nem as nossas pensões, e muito menos a violência brutal de um Fisco brutal com os pequenos, sequer a electricidade, o gás e os transportes cujos preços escalam para além de todos os limites. Se são os alemães a comandar os nossos destinos por interposto Governo fantoche nacional, cabe fazer tudo, mas mesmo tudo, a fim de escapar a quaisquer pretextos instrusos, trilhando um caminho exemplar, sério, cumpridor, sem o cinismo chinês socratesco que contradizia a cada passo o dito com o malfeito. Se havia uma ementa ideológica liberal a impor aos portugueses foi porque se lhes impôs uma forma deslavada de corrupção política, quase impossível de escrutinar, ambiente pútrido, ambíguo, pastoso, que Sócrates bebeu até ao último trago. Hoje deleita-se no seu exílio cretino, típico de quem rapou e tem medo. O cálice de amarguras bebemo-lo nós.
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