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| A Mãe trajada à vianense. |
A princípio, a Mãe sofria, estava frágil, irritadiça, amarga, especialmente após uma operação delicada e um longo período de recuperação com altos e baixos e todas as deprimências de uma ala de internamento, esperas absurdas por que lhe metessem a aparadeira e ainda mais absurdas por que lha tirassem, o travo a fome no desprazer da comida de hospital, porque toda a comida de hospital desconsola e deprime, por mais bem intencionada e melhor pensada que seja. Frágil chegou a casa, quando lhe deram alta. Resolvi que lhe faria companhia o máximo possível. Resolvi que, agarrado ao computador do Pai, passaria a fazer também ali os posts quotidianos, entre pausas doutros trabalhos, do meu labor de
blogger. A voz da mãe nunca adoeceu, como bem sabem. Nem nas piores horas perdeu o seu timbre forte, cristalino, de cançonetista, moça da rádio que nunca foi. Abatida e ansiosa, o que lhe poderia dulcificar a alma e acalmar a angústia pelo pé doente?! Música. Que a música, a sua saudosa música se lhe insinuasse e a vergasse por dentro, entre a alegre saudade e a alegre emoção, graças à imensa ventura vocal da Amália Rodrigues e de tantas e tantos outros que brilharam na rádio. E em poucos dias, ela é outra. Inicialmente, ia pondo umas listas de reprodução e lá se emocionava com um ou outro fado, uma ou outra marcha. Agora é ela que mos pede. Este tema ou aquele. «
Alcobaça», por exemplo, cantado pela Maria de Lurdes Resende, tem uma história agregada que me contou por, nos anos do Orfeão, a ter cantado a uma boa senhora a instante pedido seu. «
Havemos de ir a Viana», cantado pela Amália, também tem emoções e evocações. E nós sabemos como a Mãe tem a música sempre viva na sua memória, na sua mente e no seu coração. Todos os dias mais e mais fados de que se recorda, que me pede, e eu lá coloco a passar nessa página indiscutivelmente terapêutica chamada
YouTube por permitir o milagre suave e fácil de que se lhe ministre, dose após dose, a sua
Fadoterapia. Mas o que avulta é este rostinho, há dias tão lívido, que refloresceu na Mãe e a alegria e o riso brincalhão que renasceu na Mãe. É bom que não o esqueçamos, pois há coisas simples, mínimas, intuições e gestos, sei lá, os quais, ou vindos de Deus, porque Deus quer, ou do nosso sonho
para que a boa obra nasça, fazem com que a esperança seja possível e talvez a saúde, reconhecidamente uma das melhores coisas de estar vivo, além de ser muito amado, como a Mãe.
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morreu aos 65 devido a diabetes e problemas cardíacos associados.