O "MAJESTIC"

«O "Majestic" completou  ontem 90 anos de existência. Uma efeméride que não poderia ser ignorada por esta crónica. Não por o "Majestic" ser o sexto mais bonito café do mundo    classificação que recentemente lhe foi atribuída por uma prestigiada revista de turismo internacional   , nem por ser o local onde, no Porto, se come o melhor arroz de feijão vermelho com pataniscas. Classificado, desde Fevereiro de 1983, como "imóvel de interesse público", o Café "Majestic", por via da projecção internacional que alcançou, é hoje uma referência turística e cultural da nossa cidade. Mas é como um exemplo do empreendedorismo moderno que também (ou sobretudo?) o devemos encarar. Já vamos ver porquê. O "Majestic" foi inaugurado no dia 17 de Dezembro 1921, no preciso dia em que, segundo parece, o Porto recebia, em apoteose, o aviador Gago Coutinho, depois de uma viagem aérea por ele feita à Madeira. Apareceu baptizado de "Café Elite", um nome que tinha plena justificação porque era, naquele tempo, o mais belo exemplar dos tradicionais cafés portuenses, um espaço, portanto, para ser fruído pela elite da cidade. Só dois anos mais tarde adoptou o nome que ainda hoje mantém, após um contrato de arrendamento feito pela sociedade Majestic Lda., para a exploração de uma esplanada, aberta para a rua de Passos Manuel, onde funcionava uma cervejaria e onde se realizavam animados jogos de matraquilhos. Aquela sociedade explorava ainda, no piso superior do "café" uma ampla sala de jogos. O que mais impressionou a clientela, nos primeiros tempos de vida do "Majestic", foi o deslumbramento do luxo decorativo muito próprio da época em que a "arte nova" estava em voga. O brilho resplandecente dos espelhos que emolduram a sala; o requinte dos bancos corridos, estofados a couro gravado; as madeiras trabalhadas e as colunas de mármore terminadas em capitéis dourados e ornamentadas com figuras de querubins; a particularidade das cadeiras, confeccionadas em carvalho do norte; e as mesas quadradas, comm tampo de mármore branco, conferiram ao "Majestic" o estatuto de "café de referência", procurado, não apenas por uma significativa camada de "gente fina", mas também por gente pensante, por gente com ideias. Pode dizer-se que em torno das suas mesas com tampo de mármore se travaram verdadeiras batalhas de estética; leram-se, pela primeira vez, poemas recém-criados; ouviram-se capítulos de romances ainda inéditos. Por meados dos anos 50, o grupo dos "Quatro Vintes" (José Rodrigues, Armando Alves, Jorge Pinheiro e Ângelo de Sousa) ocupava, todas as noites, as mesas do fundo. Era ali que estudavam. Mais do que na Academia.Os escultores Lagoa Henriques e Carlos Amado; os arquitectos José Grade, Alcino Soutinho, José Pulido Valente, Júlio Anciães e Arnaldo Araújo, eram também assíduos frequentadores do "Majestic". Alunos e professores das Belas Artes eram dos mais assíduos frequentadores do café cujo nome, alguns, para simplificar abreviaram em "Magê". Era o caso de Eunice Muñoz que nunca faltava quando vinha ao Porto. Teixeira de Pascoaes, Amadeu de Sousa Cardoso e José Régio apareciam também com muita frequência. O grande Leonardo Coimbra, na última fase da "sua" Faculdade de Letras, reunia-se no "Majestic" com os seus alunos numa espécie de prolongamento das suas aulas. Chegados aos anos 80, o "Majestic", embora aparentasse manter inalterável, no essencial, a traça de 1921, mostrava evidentes sinais de degradação: as pinturas do tecto estavam em vias de desaparecer; o reboco ia caindo aos bocados; os espelhos haviam perdido o esplendor dos tempos antigos; as mesas e as cadeiras já não eram as originais; o balcão da copa não se coadunava com a restante decoração da sala. Isto no que respeita ao interior. No exterior toda a frontaria exigia reparações rápida mas onerosas. Muita da caixilharia teria de ser substituída. Foi este "Majestic", a caminhar irremediavelmente para a decadência, que Agostinho Barrias encontrou. Homem de vistas largas, com experiência adquirida ao longo de muitos anos de trabalho, não hesitou: viu no "Majestic" mais um desafio à sua capacidade empreendedora e aceitou-o. E fez deste "café" aquilo que ele hoje é, indubitavelmente: o melhor embaixador dos atributos turísticos e culturais do Porto, em todo o Mundo. A cidade já reconheceu esse mérito quando, há tempos, convedeu ao "Majestic", na pessoa do senhor Barrias, a medalha de mérito da cidade. Mas terá sido o suficiente?» Germano Silva, JN, 18 de Dezembro, 2011

Comments

floribundus said…
adorei o Porto cidade. gostava de percorrer as ruas adjacentes à Batalha e 'Sãonta' Catarina para ir merendar à Cunha
conheci o Majestic
Anonymous said…
2 de Junho de 2006 Reunião Privada da Câmara Municipal 943
6.PROPOSTA PARA QUE SE APROVE A ATRIBUIÇÃO DA
MEDALHA MUNICIPAL DE MÉRITO - GRAU PRATA AO
SENHOR AGOSTINHO FERREIRA BARRIAS. (REG. 21 832/06)
«Agostinho Barrias é um homem do povo.
Órfão aos 8 anos de idade, teve uma infância idêntica à de
muitos outros meninos de Trás-os-Montes das décadas de 40 e 50:
a escola primária, a lavoura, a vida difícil.
Por isso, ainda novo, decidiu tentar a sua sorte do outro lado do
Atlântico, no Brasil. Trabalhando afincadamente conseguiu
inaugurar o seu primeiro café e restaurante em 1959. A partir desse
momento não mais parou. Em 1961 muda-se para Copacabana e
abre um bar maior; em 1962 abre um novo restaurante.
Em 1967 o empresário regressa a Portugal e fixa-se no Porto. É
já na década de 80 que adquire os seus cartões de visita: os Cafés
Guarany e Majestic. A recuperação que levou a efeito, de um e de
outro, marcam significativamente um ambiente que Agostinho
Barrias não quer ver perder-se: o prazer de frequentar um café
sem a pressa do dia-a-dia.
O Café Majestic é a jóia da coroa de Agostinho Barrias. Um
espaço classificado como Património Público Cultural, onde a
recuperação Arte Nova foi respeitada, é hoje cenário de filmes e
programas televisivos, espaço de lançamento de livros, de
exposições, de conferências e pouso habitual de muitas figuras
públicas ligadas à política e à cultura, não só da Cidade do Porto,
mas de todo o País e até de muitos estrangeiros.
A actividade de Agostinho Barrias enquadra-se perfeitamente
nos objectivos de quem dirige a Cidade: a recuperação da Baixa e
o seu repovoamento, a criação de espaços de lazer e de cultura
que constituam um valor acrescentado a quem os frequenta.
944 Boletim da Câmara Municipal do Porto – N.º 3 659
Foi homenageado pela Câmara Municipal de Vila Real no
passado ano de 2005, com a atribuição de uma Medalha Municipal.
Por isso, considerando:
— a actividade empreendedora em prol da Cidade do Porto e
da sua Baixa, em concreto;
— o exemplo demonstrado de que é possível criar na Baixa
espaços de qualidade, com o ambiente do café tertúlia dos
inícios do séc. XX;
Considerando ainda que:
— o esforço desenvolvido no sentido de contrariar o abandono
da Baixa é um passo importantíssimo e que se enquadra
plenamente no programa desta Autarquia;
PROPONHO:
A atribuição da Medalha Municipal de Mérito – Grau Prata,
ao Senhor Agostinho Ferreira Barrias.»
__________ o __________
Aprovada, por unanimidade.

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É pouco, faça-se uma homenagem como deve ser.

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