QUANDO PENSO NO QUE O FISCO FAZ COMIGO
O modo como me espreme, apesar da minha extrema pobreza, da minha miséria que consiste em trabalhar, consumir-me, mas apenas para sobreviver, matar a fome às filhas, vesti-las, e recomeçar tudo de novo, mês após mês, roda rota da fortuna má, cepa torta de ser pequeno sob um jugo inescapável; o modo como me persegue caninamente, desde as leis cretinas retroactivas que o socratismo pariu em 2005 a fim de caçar supostas fugas à Sisa em 2003 quando em 2003 vigorava outro articulado a ditar as linhas com que então nos cozemos ao comprar a casa que o Banco comeu e revendeu e ainda nos penhorou no montante reavaliado em dívida; o modo como me esmaga de juros e coimas tiradas do cu com um gancho por supostas infracções tributárias hilariantes, por normas extraterrestres violadas por mim há dois ou três anos, de repente sujeito a outras tantas normas punitivas e a montantes cretinos de coimas mais cretinas ainda, dada a memória de elefante e selectiva para pequenos e fracos do Fisco; cada vez que penso e recordo no quanto o Fisco me fode, o quanto me falha, o quanto me fede — choro de uma raiva tão raivosa, de uma fúria tão furiosa, que era capaz de levar pela frente todas os Primadonnas ladrões, que Justiça nenhuma processa e prende, e todos os Passos de Lebre repetidos, que nenhuma coragem inspira e nenhuma honestidade resgata.
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Um primo meu é dono de um farmácia e recebe IRS, imagine-se. Por isso paga o contabilista a peso de ouro.