SÓCRATES, A VOSSA JOANA D'ARC

Não é que nos tenhamos transformado em doentios obsecados na figura feminil e primadnonnesca de José Sócrates, perante o silêncio ensurdecedor em torno do desastre por si perpetrado. Ele clama suficientemente por insistentes abordagens compensatórias. Tomados do máximo tesão pelo corte salazarento de cabelo, pelo deslizar em passerele mediática com os cotovelos dos braçitos erguidos, como nos bailes do barroco, Sócrates, os seus adjuntos, assessores e conselheiros, é que fizeram questão de nos inocular os cornos, todos os dias, ao longo de seis anos, com a injecção contínua da sua maldita imagem pela imagem, dos seus sermões de váculo lustroso, com as suas tretas com olhar o viril, assertivo e másculo de um asno, ocultando o mais que puderam merdas corruptas passadas e merdas corruptas presentes, as quais Pinto Monteiro, esse grande tampão na vagina do Regime e que Cavaco insiste em manter pifiamente no activo, se incumbiu de proteger. Daí que, por exemplo, o meu extremoso censor Valupiças, assessor em blogue-de-treta e privilégio temático de essa nossa Besta do Apocalipse, seja outro dos tais que nada mais tem a fazer nesta vida que a perpétua beatificação de José Sócrates, a sua Joana d'Arc, o seu Kennedy, o seu mártir, o cerne de todas as Nostalgias Esquerdíferas de Saque e Pirataria de Estado. Só por isso é que Sócrates continua um filão inesgotável para o jornalismo e para a bloga que não seja venal e conas conivente JN, como por exemplo o Correio da Manhã, o Sol, o Público, a SIC e a TVI. Obviamente que, quando olharmos para trás, perceberemos a casta de bichos que ousou colocar as manápulas elefantinas  na condução de Portugal Porcelana. É assim que vemos com olhos enfadados Vasco Gonçalves e outros nababos do verboso calaceiro que se locupletaram à conta da nossa fidúcia. Sim, Valquíria, tal como grafas, «o cabrão falsificou mesmo um documento qualquer. Pelo menos um, prontos. E mentia. Ou que alguém disse ter a impressão que ouviu a alguém num baptizado que Sócrates, um dia, já mesmo no final do dia, quase hora do chichi cama, teria mentido a fulano e beltrano, quiçá aos dois em simultâneo.» Tudo o que quiseres, Valquíria. O certo é que José António Cerejo fez um belíssimo trabalho jornalístico: qualquer levantamento de factos que testifiquem os meandros furões com que um inultrapassável aldrabão aldraba uma Nação inteira, e ela insiste, não se apercebe da gravidade dos indícios nem os releva, constitui um serviço cívico de magno valor, ainda que tarde de mais e sem alcance retroactivo. Os escândalos e crimes de Sócrates não são ansiados. São encobertos ao mais alto nível, o que te permite cantar de galo e esboçar uma ironia amarela.

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