TROUFÍADAS: UMA ADMIRAÇÃO TRIANGULADA

«E não é que temos uma admiração triangulada? Ah Ah. Nunca passa um dia sem vir a este blog. Quando esse dia me traz um comentário do "Besta Imunda" (mil perdões...) o meu dia está ganho. É verdade... O que havia de trazer a nau naufragada de Troufa. A arquitectura é algo que me toca de perto de muito perto. E toca-me o mau e o bom. Gosto de evolução e gosto de ruptura. Claro que a ruptura gratuita de nada serve. Mas quando se nota um traço de génio nessa ruptura percebe-se o quanto de avança de uma golpada. Às vezes só se percebe anos depois. O pavilhão de Mies van der Rohe em Barcelona é por si só uma peça com valor intrínseco e independente de qualquer outra consideração. Mas quando contextualizada na época em que foi feito é de deixar o queixo no chão. E é pequeno. E simples. A minha mulher olhava para mim com estranheza enquanto andava à volta dele e me lembrava que 25 anos antes quando o vi num livro não lhe dei grande importância. Os meus filhos pensavam que eu estava "parvo". Afinal aquilo para eles é banal. Hoje percebo o que é estar anos à frente. Era demasiado jovem para o perceber. Os meus filhos ainda são demasiado jovens para perceberem que eu percebi. Sigo de muito perto as questões da arquitectura e quando ouço uma crítica gosto de a ver fundamentada. E hoje quando se ouve uma crítica a Taveira ela é superficial, muitas vezes insultuosa e muito pouco informada. Ou apenas porque se é do Benfica... O homem sabe de arquitectura. Só que entre saber e fazer qualquer coisa genial vai um passo de gigante. E convenhamos que sem alguma formação em arquitectura é muito difícil criticar com conhecimento de causa. E não falo de conhecimento académico. Pode ser apenas conhecimento autodidata, mas por favor, que seja algum. E percebi desde logo que o conhecimento aqui era coisa que não faltava. Porventura bem maior que o meu. Troufa e Taveira não são génios. Troufa é na cabeça dele. Taveira sabe que não o é, mas é esperto e sabe que mais vale ser um homem de negócios que um artiste. Troufa acha-se um artiste e desdenha a parte do negócio. Mas o facto é que hoje seria difícil conceber a silhueta de Lisboa sem as Amoreiras. Muitas vezes parei ao por do sol junto à cadeia de Monsanto a olhar para aquilo e a pensar. Belo? Horrível? Se não fosse aquilo o que é que estaria ali? Seria mais belo? Mais horrível? É um ícone sim senhor. É o nosso iconezinho. As minhas razões da antipatia pelo trabalho de Ghery e de Siza têm um fundamento comum. Previsibilidade. A Siza chamo-lhe o Manoel de Oliveira da arquitectura. Tal como os filmes de Oliveira a arquitectura de Siza traz-me calma. No caso dos filmes essa calma degenera em várias fases do sono. Mas convencionou-se com os dois (a partir de uma certa altura) que eram o máximo. E assim a receita repete-se indefinidamente. Ora para quem gosta de novidade, um ritmo de fachada de Siza ou a sua utilização de planos é a coisa mais previsível que pode existir. Ghery pelo oposto. Esse está apostado em que nenhum CAD consiga desenhar o que ele pensa. É um sketcher on steroids. Titânio, alumínio, aço. Todos os metais desde que sejam tortos e causem o maior dos transtornos em obra. Ele não podia ser um génio sempre. Ao tentar sê-lo repete-se no desvario até se tornar ... previsível. Muitos pensam que eu cometo um crime de lesa majestade ao falar assim de Siza e de Ghery. Paciência. Cá sempre se formou o arquitecto como um artista. Pelo contrário a escola anglo saxónica forma técnicos competentes dos quais saem artistas surpreendentes. Bastava apenas que se tivesse formado uma geração de bons técnicos, com boa visualização dos espaços, atenção ao detalhe, conhecimento histórico e bom sentido estético. Tudo isto se ensina. Hoje é tarde demais. Seja como for apreciei mesmo esta nossa troca de argumentos. Acabamos por nos encontrar no meio do caminho. E quanto à igreja do nosso artiste só espero que não o deixem pintar o casco da nau nem por lá as caracoletas...» Groink

Comments

Miguel said…
Eu não tenha a mesma paixão pela Arquitectura, mas, a mim, as Amoreiras não me encantam em nada. O mesmo do estádio do Sporting. Aliás o mais interessante é o do Porto. O que o do Braga e o do Benfica ganham pelo seu interior, perdem por fora, E não é por ser o Taveira, ou por clubite. Até porque o meu clube não joga na 1ª liga. Agora, tens direito à tua opinião.

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