domingo, abril 21, 2013

ELE NEM TUDO É SINAPSES

Os filhos da puta dos cientistas estão sempre a surpreender-nos, não fosse, com esta idade e experiência, sabermos que muitos dos postulados que os media veiculam a partir de estudos, análises e conclusões, do género o vinho tinto contém antioxidantes [comprem mais vinho] ou que o café previne Alzheimer [passem a consumir café], não cumprissem um princípio de meias-verdades acoplado ao espevitar do consumo precisamente daquilo, normalmente alimentos, que a ciência elogie. 

Agora dizem-nos que aos 27 anos de idade, sendo ainda jovem, na verdade o nosso cérebro começa a sua inexorável decadência. Quase aposto que temos neurónios e sinapses na língua de carne, na pele, no pénis, devido ao bom uso que deles fazemos, mas a ciência está aí para nos recordar que os neurónios vêem as conexões entre eles a piorar precisamente a partir dessa idade, matando em cada qual quer a inteligência espacial, quer a capacidade de desenhar objectos e visualizá-los mentalmente, quer o raciocínio, quer a memória os quais, na verdade, vão decaindo.

São estas, pelo menos, as conclusões de um estudo de fôlego pela Universidade da Virgínia, que mediu as capacidades cognitivas de duas mil pessoas de várias faixas etárias. Que o ponto de viragem na vitalidade cognitiva esteja nesse marco etário é o preço da evolução, ditado em grande parte por milhares de anos atrás de mamutes, a fugir dos tigres dentes de sabre e outros predadores possantes, quando a vida era tão breve, copular tão concentrado no tempo, e, na verdade, não se vivia muito mais que trinta anos, exaustos de foder [tentar], a comer mal, a guerrear na defesa do território, a caçar percorrendo milhares de quilómetros e sobretudo a não ter a porra de um coto de sossego, não fosse tão difícil agradar às fêmeas com bons colares de ossos, dentes de animais e fins de semana nas melhores cavernas. 

Vá que, de acordo com o mesmo estudo, a Língua-Linguagem não se ressinta, pois aparentemente é no verbo que está a nossa força enquanto espécie, já que as nossas faculdades de expressão verbal progridem até aos sessenta anos, o que explicará um Homero, um Saramago, um Umberto Eco. As fontes de sabedoria e de persuasão, exceptuando Mário Soares esse macaco carbonário, estão na velhice, pois podemos aprender permanentemente coisas novas, aumentar o número de informações no cérebro, para equilibrar parcialmente a degenerescência cognitiva. 

Calma. Há efectivamente quem se mostre deprimentemente velho antes dos vinte e sete ou pouco depois. É por isso que podemos ver velhice e calcificação no chato do Pedro Marques Lopes [aquela voz de falsete dói!] e em quantos papagaios, Daniel Oliveira, por exemplo, reproduzem retóricas do fim do mundo ou a ilusão de que o fim do mundo se resolve com a maceração crítica ou a evacuação do Governo Passos Coelho ou o assassinato do consenso político-partidário numa situação de absoluta emergência nacional. Já Clara Ferreira Alves, jovial e criticamente distanciada, aponta para o contexto adverso e penoso da Europa, poupando-nos à mesquinhez do olhar vesgo interno e exclusivo que pisa e repisa nos mesmos bodes expiatórios, e logo a Clara, que tem pescoço de grou, olha se não tivesse?! Benditas sinapses neuromusculares!

Conclusão: a velhice, enquanto arte de dizer mal do mundo e arte de desesperar de saídas e soluções, é muito uma coisa de Esquerda, não é?!

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