quarta-feira, abril 17, 2013

ODEIEM ISTO

O ambiente da bloga e da opinião em geral anda muito raivoso. Um radicalismo pouco respirável e ainda menos recomendável emerge como a mais recente forma de pólvora seca. A raiva, porém, é um acto mal direccionado da razão, especialmente quando não quer ver a realidade como qualquer coisa de bem mais complexo que o monocromatismo dos nossos ódios e ascos. Em geral, a cegueira sectária mostra-se má conselheira, quer naqueles que apontam o dedo ao papão do neoliberalismo, quer naqueles que muito justamente espumam e sofrem pela morte anunciada do Estado Social tal como o conhecemos, como se não tivesse sido antes de mais o definhamento económico consentido nas governações passadas a matá-lo, processo de há muito mais que um bom par de anos.
 

Os números da nossa desgraça não nasceram desde há dois anos. Se em 2012 a riqueza nacional caiu 3,2%, em parte devido à famosa receita amarga do organismo liderado por Christine Lagarde, façamos justiça ao facto de o nosso País ter das finanças públicas mais insustentáveis do Mundo devido ao modelo económico seguido até 2011 e às escolhas governativas tecidas ao longo das últimas décadas, coito Governo-Banca/Sectores Protegidos, assunto sobejamente submetido ao bisturi impiedoso da revisitação analista, condenando desde as escolhas do Primeiro-Ministro Cavaco aos deslumbramentos parolos do último mentiroso supremo e absoluto. Se querem odiar alguma coisa, odeiem isto, o estado a que chegamos.

Meditemos, meditem também aqueles que fantasiam arrancar-me os colhões à dentada porque ofendi a divindade inquestionável, sobre o que nos fizeram os políticos nacionais e o que gizaram para nós os gabinetes bolorentos de Bruxelas. O que empurraram com a barriga. O quanto mentiram, endrominaram, embolsaram, oneraram com dolo. Por que motivo temos um tal grau de envelhecimento da população, uma tão elevada dívida pública, 122% do PIB e a subir [porque mai lo dinheiro da Troyka]?! Em primeiro lugar, devido a um problema horroroso de corrupção, corrupção, corrupção. Depois, por causa da dissolução dos princípios por que se deveria reger um estadista, qualquer estadista: não as eleições, mas a economia. Um mix de imbecilidade geral, ganância e malícia nas elites, incompetência, explica a tragédia portuguesa. O último estadista, no plano económico, foi Salazar. O que veio a seguir só pode ter sido uma chusma de aprendizes menores, governando errantes ao sabor dos interesses mais menores ainda, terçando por sistema, e para papalvros, as armas da demagogia e do populismo.

Agora nós temos um problema. Para que dívida pública nacional atinja os recomendáveis 60% do PIB, em 2030, este Governo, qualquer Governo, o Governo de António José Seguro, o Governo da Catarina e do Semedo, o Governo do Jerónimo, o Governo-quem-o-apanhar, terá de fazer cortes permanentes da ordem dos 8,9% do PIB, cerca de 15 mil milhões de euros a preços de 2013, quase quatro vezes mais do que a Casca de Noz presidida por Passos pretende cortar até 2015. Como arejar as contas públicas sem o concurso do ToZé, hoje em namoro de desdém?! Impossível. Mais impossível que tolerar as lágrimas de crocodilo do jacaré ardiloso Soares.

Nada disto seria tão dramático se a Zona Euro não estivesse ela mesma em crise, à beira da recessão, comprando menos o que temos para vender. Só a solidariedade entre os europeus poderia fazer a diferença: se os Estados europeus mais ricos não têm outra receita senão impor-nos um tipo de austeridade que sufoca, poderiam pelo menos estimular os respectivos cidadãos a uma mobilidade turística e aquisionista dentro da União, especialmente pelos países do sul. Imaginemos, num só ano, um fluxo de dez milhões de reformados alemães, ingleses, noruegueses, holandeses, dinamarqueses, nos nossos hotéis, praias, parques de campismo, monumentos, teatros, museus, restaurantes. 

Desde o primeiro vagido do Cosmos até ao momento em que alguma inteligência emergiu do lodo, o único e absoluto milagre foi a solidariedade. A solidariedade faz possível o impossível. Dos mais ricos para com os menos ricos. Dos que se entrincheiram na Direita para com os da trincheira da Esquerda: no fim tomam todos o mesmo tipo de café e bebem juntos da melhor aguardente nacional, brindando por mais um dia vivos e igualmente humanos. Não odeiem isto.