ARTE DA FOME

Maria atirou-se ao Mar. Furibundava ele espumas, paus e godos, tinha fúrias e lamas violentas e cada onda eram muitas, coleavam e volteavam ríspidas na rocha milenar, ara sacrificial, do Senhor da Pedra. Maria atirou-se. A fome. A vergonha. O desespero é um veneno. Vão dizer que, por acidente, o seu delicado pé bipolar resvalou. Vão insinuar da destoma dos antidepressivos. Broncos! Maria atirou-se aos braços do Mar, quis sufocar, bater com a cabeça, ir na corrente, homenagear a Morte. Atirou-se. Cansara-se. Empregos, um a um, serviam-lhe humilhações de bandeja. Grande prostíbulo é o chamado ordenado mínimo de que depois a vida a secava até ao último cêntimo. Broches ao patrão nunca mais!, esse mal lavado pipo de unto, mau pagador. Atirou-se. Filhos? Três. Pequenos. Divórcios? Dois. Fatais. Atiro-me. Estou atada. Para não ver o sorriso do filho da puta, o ganancioso cabrão, nem ver vizinhas, nem ver o meu zero. Antes que a fome venha. Ao Mar, um mar revolto e verde-cinza, lançou-se Maria, sem ponta de angústia, a ver se nascia de novo.
+%E2%80%94+Pieter+Bruegel+(1564-1638)+%E2%80%94+Kunsthistorisches+Museum,+Viena.jpg)
Comments
Infelizmente superabundam, cada vez mais, Marias assim. E ninguém faz nada!
Olha, antes que me atire ao mar prefiro tomar voo a ver no que dá:
http://escritariscada.blogspot.com
Abraço
Jorge
E o amor não é assim.
O suicídio nem sempre é fraqueza e covardia: acho que alguns são de altivez e coragem.
Ficai com os vossos euros, os vossos carros luxuosos, as vossas mesquinhices, a vossa arrogância ... eu vou já.
Maria deixou um pouco de si... três filhos! Outros não deixam nada.
Que os teus filhos te lembrem, te respeitem e sejam respeitados como tu não foste Maria.
Abraço Joshua