PANEGIRISTA E VIDENTE


Ardem lentos, na praça, um a um, os familiares e os outrora amigos de negócios que entretanto vão aparecendo e confessando inocência e mãos limpas. É legítimo e mais que legítimo saber e conhecer tudo o que os nossos governantes e representantes fazem com o dinheiro de todos ou como se comportam quando em cargos de máxima responsabilidade. Não estamos em tempos de obediência servil a crápulas discretos e com as costas bem questes, obediência alheada do que nos interessa a todos, aliás, nunca estivemos, senão por manifesto equívoco e deformação cívica fruto da longa noite salazarista onde nos faziam o favor de pensar por nós e em nosso nome. Abjecto é não querer saber. Se há nomes que ardem na praça pública, paciência, outros valores mais altos se levantam. A res publica está purulenta, a corrupção grassa e é basilar em Portugal, tornando tortuosos os mecanismos naturais de ascenção social e mérito. Depois, estas personagens soterradas saem das suas luras negacionisticamente e temos de lhes ouvir lugares-comuns. Como não foram sujeitos a tortura (de resto ineficaz e contraproducente), e mesmo que fossem, a não ser ao lume brando da suspeição grossa e negra que paira pelos media, confessam-se inocentes e outra coisa não seria de esperar. Acontece que a estranheza absoluta dos factos está aí para infirmar ou desassossegar as confissões de absoluta lisura, e é por isso que podemos e devemos ter acrescido medo sobre o que se passa em Portugal quando Hugo Monteiro, gritando desde a longínqua China, primo do primeiro-ministro, José Sócrates, referido no caso Freeport, nega hoje "qualquer actividade ilícita" relacionada com aquele processo e manifesta-se convicto de que, "muito breve, as investigações vão concluir". Como é que ele sabe isto? Concluir investigações em Portugal é não as ter feito nem aprofundado, nem diligenciado a fundo por que a verdade suplante a suspeição e por outro lado supõe que o longo braço berlusconizado, de tão estendido, pode bloquear o que bem entenda, mandar arquivar, e se telefona para o editor de um jornal e o impreca a não publicar matérias delicadas para si, como não haveria de exercer o seu poder para, socorrendo-se de si mesmo, 'concluir' uma investigação melindrosa?! Além disso, Hugo diz que não recebeu "qualquer suborno", esquecido de que estas coisas nunca se admitem, mesmo que se esteja na China: "Nem eu nem o meu pai recebemos qualquer suborno ou estivemos envolvidos em qualquer actividade ilícita relacionada com o Freeport", disse o mesmo à Lusa. Grande mistério é que uma personagem escondida, evaporada, certamente o maior panegirista do sistema e da sua família admirável, a quem tanto deve, possa dizer que: "Muito em breve, as investigações vão concluir isso [que nada fez de ilícito] e tenho até a impressão que já concluíram". Ufa, que alívio! O caso Freeport deve estar a morrer lentamente, aliviando a pressão sobre os nomes e as personalidades delicadamente envolvidas e o Hugo supõe e sabe mais que nós, espectadores da trama. A verdade é que bastaria um passe de mágica para tudo isto se dissolver, conforme muito bem aduz Nuno Nogueira Santos: «Nos últimos dias, Primeiro-Ministro e não só têm tentado fazer passar a "tese da cabala" ou, como agora lhe chama, da "campanha negra". Na verdade, se nos lembrarmos, também Cavaco Silva foi alvo de várias "campanhas negras". Uma delas, dizia que tinha feito obras em casa, pagas pelo Estado. Não era verdade, e Cavaco promo-o, mesmo sem haver qualquer processo judicial, exibindo facturas e pagamentos. Recentemente, correu a hipótese de ter interesses no caso BPN. Mesmo sem ser suspeito ou acusado pela Justiça ou por alguém, Cavaco Silva apressou-se a mostrar quais eram as suas contas bancárias e em afirmar, peremptoriamente, que não possuia qualquer interesse ou conta no BPN, arrumando com a questão. Gostava de ter visto o Primeiro-Ministro, mesmo sem ser formalmente acusado, ter demonstrado a mesma frontalidade, dizendo onde tem contas e, sobretudo, que não tem contas "off-shore" (ou que tem, e onde estão). De facto, Sócrates não tem, do ponto de vista da cidadania e do ponto de vista legal, que o fazer. Mas Sócrates não é um cidadão qualquer. É o Primeiro-Ministro. Tal como é obrigatório que os titulares de cargos públicos façam e publiquem os seus interesses e declarações de rendimentos, Sócrates deveria ter seguido o exemplo de Cavaco Silva. Não por ser suspeito de nada, mas para não o ser. É que, não ser suspeito, no caso de Sócrates não é apenas um direito é também um dever». Porém, este milagre de transparência só está ao alcance de um homem cheio de defeitos, Cavaco Silva, menos a terrível deformação de carácter de não ser sério e acima de qualquer suspeita. Era fácil 'concluir' desde logo as investigações. Alguém nos faça esse favor, desde que nos não deixe estarrecidos com a leviandade e superficialidade injusta de tantos arquivamentos suspeitos ou suspeitos arrastamentos processuais.

Comments

antonio ganhão said…
Cavaco é um político desactualizado.

Quem não é suspeito está politicamente morto e depois não temos alternativa.
Anonymous said…
Não ser suspeito é um dever. Perfeitamente de acordo.
Concluir desde logo as investigações outro dever.
Da forma que as coisas andam, parece que dá jeito não sei a quem que isto se arraste no tempo e no espaço.
Pata Negra said…
A bicharada faz tudo legal, a bicharada faz as leis. A bicharada não tem nda a esconder, a bicharada já tem tudo escondido. Para a bicharada é tudo muito natural, a bicharada faz parte da natureza!
Que coincidência de sobrenomes não existe por tudo o que é país! É natural, somos um país pequeno, tão pequeno que nem tem lugar para mim!
Joshua, isto não vai lá com palavras belicosas como as tuas, isto só lá vai da estaca zero para frente! Que fuja a corte, o tenreiro e o caetano pró brasil!
Eu quero o caos autêntico, não quero o falso caos onde só eles se organizam!
Cala a boca Joshua não fala política, não fala política... não fala política!
Um abraço pelo derrube
Anonymous said…
Afinal este pantanal estas figuras movediças formam: um caso DO estado ou são um caso DE estado e o povo que aguente!

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