A IGREJA DOS SOCIALISTAS MILENARISTAS
Quase todos os socialistas-socratistas se converteram em milenaristas, pregadores do fim do mundo, não como quem o abomina, mas como quem de facto deseja sangue e vingança por terem sido apeados de uma governação absolutamente descredibilizada e mentirosa, em Junho passado. Terem estado próximos e tão beneficiários da tetina escorrente do Estado-Partido viciou-lhes o recto juízo e o sentido de equilíbrio, coisas aliás que nunca conheceram, dada o tom passional que colocam nas suas análises e postas. É-lhes impensável que se saia, por qualquer maneira eficaz, do buraco europeu para que precisamente governos socialistas atiraram esta Europa e Portugal. Por isso falam em actos da tragédia europeia, falam de devastação económica, financeira e social, falam de devastação política, falam ardorosamente da suspensão das constituições e falam do que abala os alicerces em que assentam as democracias, como quem acorda de repente para ver o mesmo que nós, mas sem a ancestralidade da própria culpa contumaz. Pitta e Adão e Silva, por exemplo, mas também muitos dos que por tantos meses, talvez anos, prostituíram a inteligência ao serviço do Partido Socialista-Governo, como se de um País, uma causa em si mesma, se tratasse, estão intratáveis, cuspilhando agora sentenças e que o pior ainda está por vir. Do lado dos dois Governos socratistas que defenderam com unhas e dentes, estava a ilusão socialóide do Estado Social baseado em dívida e mais dívida. Agora atiram-se como cães com cólera contra a suposta ilusão tecnocrática que assenta no pressuposto de que só governos não sujeitos ao voto e às pressões partidárias são capazes de implementar as reformas necessárias, sabendo que quer Grécia quer Itália não têm um minuto a perder para suster os próprios problemas e definir um rumo absolutamente firme. É ver como estes críticos demasiado viciados e enraivecidos, como Adão e Pitta, se rebolam na cama de pregos da realidade que ajudaram a cavar! Por um lado, vemos Pitta a anunciar para os próximos meses Portugal sob um Governo de salvação nacional, substituindo o de Passos, Governo liderado por um independente qualquer. Por outro vegetam na tentação da rua, o tesão pela rua a fazer com que a raiva lhes suba aos dentes. Mas a verdade é somente esta: chegados aqui, os problemas europeus só poderão ser resolvidos por um caminho moral e material incrivelmente estreito, algo com que chineses não têm que se preocupar nem brasileiros nem outros povos fora do vórtice dos nossos problemas. Os cidadãos europeus têm de ser salvos com um rumo novo, extremamente duro. Mesmo a democracia plena, tecida em favor dos povos, é algo que nem sequer eleições têm garantido na Europa e muito menos em Portugal, onde perfeitos cretinos, anticristos, fomentadores do aborto e da deserção dos campos, são eleitos sem que quase ninguém vote ou perceba porquê. Para grandes males, grandes remédios: executivos formados após a eleição dos seus partidos, como o de Berlusconi ou o de Papandreou, não eram mais passíveis de controlo democrático nem menos dados ao divórcio com os respectivos cidadãos. O processo de decisão governamental baseado na ideologia e na decisão democrática também tem decaído e se convertido numa ilusão enganadora: democracia que eleja actores duvidosos como Berlusconi, graças a abstenções esmagadoras e formas subtis e poderosas de manipulação da opinião pública, não é democracia. É doença. É chaga. Uma democracia que comprometa verdadeiras escolhas, perante situações calamitosas, e verdadeiras saídas, dentro do caldeirão dissolvente da desagregação económico-financeira, já está em crise há muito tempo e à mercê do caos. Nem essas democracias sacrais, nem essas constituições de última hora nos salvaram de mentiras, de saques, de actos de privilegiatura principesca, de dívidas a um nível insustentável. Acabou. Dois técnicos com moral e prestígio interno e externo, para já em Itália e na Grécia, serão, no fundo, as únicas garantias de êxito e êxodo para que tudo resulte conforme importa que resulte. Aos que, como Adão, lhe chamam, não estado de emergência, estado de necessidade imperiosa e mudança de rumo urgente, mas pulsão autoritária com o rabo de fora, recorde-se-lhe a merda colossal em que consistia o autoritarismo imoral de Sócrates que ele tanto e de tantas formas defendeu, amamentou e embalou. Pode começar por limpar a boca ou as mãos antes de escrever o que quer que seja.
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