MANIFESTO ÀS PASSEATAS E MARISCADAS DE LUTA
As nossas praças são belas como um incêndio e as nossas montras e esquinas das baixas de Porto e Lisboa merecem tanta preservação e desvelo como os prémios de produtividade de Mexia ou Bava. Para quê levantar as pedras da calçada? Quem nos pagará o almoço pelo serviço e os iogurtes para os filhos? Não é o PCP que nos suprirá com sopas e broa, uma vez enrouquecidas as nossas vozes com slogans! Abaixo as passeatas ordeiras e os cartazes moles e frígidos! Abaixo a falta de palavrões nas avenidas e betesgas! E já não há filhos da puta! E já não há cabrões de merda, chulos vendidos, chupistas do Estado Social pelo cu acima, formidáveis mentirosos! Em Portugal não há luta. Há correcção. Há passeatas e até mariscadas de luta no bom sentido, os dentes a lutar com o marisco e as pernas e as hérnias a lutar com a passeata. Há o melhor perfume e a melhor barba no desfile da luta, na passerelle da luta. Não há luta em Portugal. Há tesão concomitante com quem o tem e alterna tê-lo na Casa dos Segredos, cujo interesse suscitado vale por mil lutas e mil milhões de regicídios ou assassínios presidenciais. Lutar e resistir contra os cortes de subsídios e não sei quê deveria passar por julgar os corruptos sorridentes, perseguir os ex-governantes incompetentes e dolosos, prender gatunos de grande porte e de ainda maior promiscuidade política-negócios em vigor há décadas e há décadas ao alto a dar-nos luta. Luta em Portugal? Não creio. Não há luta nenhuma em Portugal. Podemos sair à rua esfomeados, rotos e desesperados, que nenhum tijolo e nenhum bastão virá aterrar na nossa testa por compaixão como também não partirão da nossa mão nem pau nem pedra. Deixem-nos trabalhar a eles, os ministradores da deriva austeritária. E ajustem contas contra os homens do circo disfarçados em governantes que estavam lá antes e engordaram soberbamente. Nem se fala deles tão consoladinhos deslizam em exílios que exalam glamour e haute cuisine. Não há luta em Portugal! Só sonecas e passeatas vagas, pachorrentas, amarelas, tíbias, aos Domingos, pela tardinha, pensando nos filhos, pensando nos netos, clamando por não sei quê contra o congelamento de carreiras e eu mal tenho com que comer com a misteriosa miséria que ganho. Somos um País de sangue frio e, como répteis, também fadados a uma deglutição fria, a frio, por outros répteis, pelos deuses, pelos mercados, como outrora quase por Napoleão e depois pela República de papões sanguinária e cáustica na sua vanidade. Somos intragáveis e servis e medrosos e medíocres. Não temos colhões para luta. Só para passeatas e férias e merdices. Luta, tal como pastéis de bacalhau, é que já não temos.
+%E2%80%94+Pieter+Bruegel+(1564-1638)+%E2%80%94+Kunsthistorisches+Museum,+Viena.jpg)
Comments