Entre os meus quatro-cinco anos e os meus doze anos, só havia um herói e só havia uma esperança: Francisco Sá Carneiro. A sua morte foi um dos maiores desgostos por que passei. Por altura das suas exéquias, embriaguei-me até ao desmaio pela primeira vez na minha vida, à socapa, com vinho do Porto Vintage, docinho, guardado na sala e fechado. Raptada a chave, gole a gole, enquanto chorava como um bebé e rebolava em prantos pela casa, rouquejava: «Filhos da puta que mataram Sá Carneiro.» [Criança emotiva-intuitiva, os filhos da puta em que estava a pensar, coitados, eram obviamente Mário Soares e Cunhal porque directos beneficiários políticos daquela perda.] As palavras para descrevê-lo, no curto trânsito da sua vida e acção política, são claramente as do Pedro Lomba: «impaciência e patriotismo moral». Era isso, a frescura da ruptura e o sentido de um progresso que se abraça. Testemunhei-o inúmeras vezes a cada debate e declaração televisiva, a cada notícia que me chegava. Aos ombros do meu pai, estava no Aeroporto de Pedras Rubras, quando ele chegou de Londres, algures pelo período revolucionário. Aquela multidão que o amava e saudava via-se prenhe de uma espontânea esperança profunda que ninguém hoje na pseudo-política nacional pode traduzir ou corporizar porque ninguém está próximo das nossas gentes, ninguém sofre com elas, ninguém priva com elas, observa, zela ou se compadece delas: tenho visto em Sócrates, legitimamente o mais insultado e mais odiado de sempre, além de um anticristo da ética e da decência políticas, o mais acabado anti-Sá-Carneiro. Rolo compressor de gente, insensível, altivo para com as pessoas, demagogo, cruel, sádico, serventuário de um grupelho feio de devoristas, Sócrates trouxe-nos ao fedor da dívida esmagadora e à iminência de maiores apertos. Trouxe-nos psicologicamente dentro das suas eternas calças de bombazina vermelha e sapatilhas brancas. De degradação em degradação, depois de Sá Carneiro, efectivamente, não houve nem há Ninguém. Só Mandela, mas não é nosso.
«After he has suffered, he will see the light of life and be satisfied; by his knowledge my righteous servant will justify many, and he will bear their iniquities.Therefore I will give him a portion among the great, and he will divide the spoils with the strong, because he poured out his life unto death, and was numbered with the transgressors. For he bore the sin of many, and made intercession for the transgressors.» Isaiah 53

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