UMA GALINHA QUE ERA UM CÃO
Durante anos, muitos, a bichinha resistiu a qualquer veleidade felina, no pátio e no quintal, porque era mais gato belicoso que qualquer gato. Emparceirou com dois patos, sortudos remanescentes de uma mais vasta postura, que eram seus amigos. Ela, destemida, protegia-os amiúde. Era vê-los unidos, os três, sob o calor mais inclemente ou abrigados da chuva e do vento mais uivante. Saudável, produziu um rio de ovos acumulados num local combinado. A nossa galinha era o cão da casa. Mais que um cão, aliás. Respeitávamo-la. Amávamo-la. De apetite insaciável, canibalizava restos de frango, reputada carnívora, e nada desperdiçava. Riamos porque enxotava a concorrência, atemorizando-a, sobretudo gatos e outros bichos à borda da tigela de latão prateado. Mas hoje, pela manhãzinha, não pôde resistir a dois cães filhos da puta invasores. Deve ter dado luta. Debalde, pois era já idosa. Foi um desgosto. Um sincero desgosto. Penas por todo o pátio. Notícia dada pelos vizinhos.

Comments
Ass.: Besta Imunda
estamos cada dia mais desacompanhados.
parte dos filhos que referiu estavam no parlamento.
hoje pode ver Salomé