LEPROSA INDIGNAÇÃO HIPÓCRITA

Obviamente que este tipo de indignação unânime pela 'armação' que Pinho inventou ontem no Parlamento é o lado fácil da indignação e eu preferiria que Cavaco nem sequer se pronunciasse a fazer coro com tal hipócrita unanimidade. Os portugueses vivem indignados por coisas muitíssimo mais relevantes que quaisquer falhas de etiqueta e saber estar de um Ministro Gaffeanamente Gafado, num Governo Terminal, engolido pela Soberba neossalazaresca de um só. Urge que os melhores, mais capazes e generosos políticos refresquem a vida pública pela sua juventude e sentido de serviço à comunidade, coisa que não se sente de todo. É possível exigir e obter mais responsabilização, mais capacidade de acção construtiva e federadora, uma vez num Governo transparente e democrático. Ver, pelo contrário, um Governo como uma plataforma de interesses em benefício das mesmas clientelas, da mesma nomenklatura de favorecidos por décadas, degradando e empobrecendo Portugal, isso é que ofende e indigna. Para todos se indignarem com o que vai de gravíssimo minando a acção política não carecemos de nenhum bode expiatório já munido de hastes como ónus. Naviarra de Loucos, o Regime vai leproso e inseguro. Só uma purga eleitoral e um discurso autêntico poderão remediar um cancro adiantado. Da Nação acabada de nascer, no século XII, cheia de Seiva, Liberdade e Projecto resta agora um trambolho, engelhado nas Leis, balofo na Economia, comido de mal da raiz à ponta sem Unidade no Essencial e Sentido Comunitário. Observe-se o corpo leproso do Regime: nas patorras informes de vícios só se vêem as unhas de Rapina, mas não as veias da solidariedade; as pernas, ulceradas, são pinheiros cascalhudos, sangrados sem piedade pela Cobiça, pelo gosto de mandar sem humildade nem sabedoria; no peito, medram a esmo os caroços do Favoritismo de Facção, sôfregos como cogumelos num toco carunchoso. Mas é no rosto da República e do Regime, nos quais a Nação cada vez menos se espelha, que os estragos da devastação são mais cruéis. Dir-se-ia que lhe foram colados à cara natural bocados toscos de barro vermelho, numa tentação demoníaca de caricatura impiedosa do que seja Justiça, labiríntica, obscura, contraditória, babélica. Nenhuma imaginação humana, por mais rica e ruim, seria capaz de deformar tanto a fisionomia de um Regime Político, de uma República na qual a Nação mal se revê: «O Presidente da República juntou-se hoje à “indignação” manifestada pelos partidos relativamente ao comportamento do ex-ministro da Economia no debate do Estado da Nação, sublinhando que o respeito pelas instituições é “um princípio sagrado da democracia”.»

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