segunda-feira, novembro 11, 2013

CUNHAL, PAPEL QUÍMICO DE SALAZAR

Cunhal foi-nos perigoso na sua servil e irredutível fidelidade à URSS e depois, com o passar do tempo, transformou-se apenas em mais um venerável e inócuo idoso pré-mumificado, ainda carismático, coerentemente petrificado, enquanto a URSS desaparecia e ficavam apenas as deletérias cinzas dela, milhões de mortos, presos políticos, silenciados, estrangulados nas liberdades mais elementares. O Político falhara. Surgiu o Artista. Avultou o Romancista. E esses são para amar e venerar, sem lentes nem peias, porque é sobretudo a humanidade, mais que a fria postulação política, a manifestar-se.

Tinha eu quatro anos quando, pela TV, e no ano da Revolução, o vi e ouvi pela primeira vez. A sua efígie terrífica causava-me medo. Aquela voz fina e salazaresca, aquele cenho fechado e esfíngico, formavam como que um todo, o qual em espelho, não passava de uma contraversão, pelo menos na concha corpórea, do velho ditador. Até à morte de Sá Carneiro, aterrorizava-me a ideia de suportar aquela hirta e hirsuta figura, incapaz de um sorriso, à frente dos destinos do meu País, coisa que sabiamente o nosso eleitorado soube evitar, embora, no período revolucionário, muito dano e abuso se tenham esparzido no País.

Infelizmente, apesar de Cunhal, Soares teve todo o tempo do mundo, na sombra ou às claras, para tratar da sua vidinha, cevar-se de todos os modos possíveis com o pão de ló dos recursos nacionais, dos financiamentos partidários internacionais, e a manha de empatar um Estado limpo, próspero, à prova de gatunagem, corrupção e, de vez em quando, à prova daquela falência sistémica da praxe. Cavaco só prolongou o mesmo tipo de deslumbramento impante que inicialmente a Europa parecia proporcionar à nossa classe política cada vez mais arrivista e de 3.ª categoria, a começar por Soares.

Reconheço, hoje, que o despojamento e escondimento intelectualmente póstumos de Cunhal tiveram infinitamente mais dignidade que o ostensivo engordar de bolso e de vida de Soares: num País normal não deveria ser normal enriquecer assim, tão mal-explicadamente. Também admito que tenho sentida inveja do aparente calor humano e sentido de ética e ordem dos militantes comunistas, embora demasiado ortodoxos na conservação da fé, na punição persecutória dos hereges ou corpos estranhos.

Resulta, pois, que Mestre Cunhal embora mais rígido e mais perigoso enquanto político foi, em quase tudo o mais, superior ao seu Discípulo Soares, que hoje definha entre o desbocamento completamente deslocado e a malícia impostora das Esquerdas que visa federar e não federa, por mais que tente. Cunhal, estando morto, dá-nos paz, uma completa paz entre as ossadas apaziguadas da utopia e o cadáver adiado do totalitarismo.

Pelo contrário, Soares, ávido fóssil da falecida retórica ideológica e do sectarismo mais tresloucado, não. Com aquela idade, está-se nas tintas: permite-se dizer o que lhe apetece e conspira a céu aberto contra o interesse nacional, baixando o nível, desumanizando os membros do Governo, manipulando Seguro ou apoucando-o publicamente, utilizando um vocabulário latrinário para tratar de coisas sérias. Perdeu todo o respeito por si mesmo. Perdeu o respeito por nós. Perdeu o respeito por Portugal. Perdido por cem, perdido por mil, quer ir-se numa fulgurante fogueira de vaidade lá, onde Cunhal deslizou rumo à irmã morte silente como um santo laico que, provavelmente, até era.

3 comentários:

Aníbal Duarte Corrécio disse...

Subscrevo e pico para o face. Abraço!

Guilherme Antonio Morgado disse...

Joaquim, Cunhal pode ter tido muitos defeitos, mas foi sempre frontal e nunca nos enganou quanto às suas intenções. Quem acompanhou as suas ideias, acompanha-las-a hoje e vai acompanhá-las para o sempre.
Este Homem foi fiel e dedicado aos seus princípios até à sua morte! Fará verdadeiramente parte da História de Portugal.
Será sempre recordado ao longo dos tempos.
Para além disso nunca foi verdadeiramente "O Responsável" pela situação a que a nossa Pátria chegou. Esses, sabemos bem quem são. Felizmente não farão estória.
Os Portugueses apenas se recordarão "desses seres" como os que, durante quase trinta anos, os mais mal trataram!

Anónimo disse...

cunhal , soares , sampaio , almeida santos , alegre , portugal está cheio de traidores !