Sinal incrível dos tempos portugueses é que sobre espaço para os vivos e os filhos dos vivos que não se fazem em Portugal — tanto T0, T1, T2, T3 por vender!, tanta gentinha jovem preferindo cães a bebés!, tanta juventude emigrando para as europas! —, mas falte espaço nos cemitérios para acomodar cadáveres, ossadas, para suportar, portanto, a tradicional e canónica, mas talvez cara, inumação católica. Daí que a cremação seja, cada vez mais, a opção preferencial dos portugueses, em caso de morte, naturalmente, se bem que não faltem razões para a mais desesperada e simbólica imolação pelo fogo. Completa-se assim um ciclo, desde que chegámos à Índia, se não quisermos entrar pela reabilitação do conceito "forno crematório" associado igualmente à "resolução" de um problema Endlösung der Judenfrage: a pira funerária, promovida em filmes e sagas, leva a melhor sobre o apodrecimento aprisionado no caixão. O fumo e a cinza vencem a lógica da degradação ou da mumificação, outra das vias possíveis para as exéquias do futuro. O presente passa por que se evolem em fumo alado os nossos mortos, talvez os únicos sobreviventes, afinal, do derradeiro forno crematório metafórico — esta incineração social que se divisa no horizonte, revolução transformadora ou morte, lenta, pastosa e inexorável.
«After he has suffered, he will see the light of life and be satisfied; by his knowledge my righteous servant will justify many, and he will bear their iniquities.Therefore I will give him a portion among the great, and he will divide the spoils with the strong, because he poured out his life unto death, and was numbered with the transgressors. For he bore the sin of many, and made intercession for the transgressors.» Isaiah 53
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1 comentário:
...entretanto os numerosíssimos cadáveres sobrantes do "Portugal de sucesso" dos anos 90 vão pintalgando a paisagem: lotes e lotes; urbanizações sobre urbanizações; edifícios atrás de edifícios - todos vazios, ainda 'novos', todos alinhados como exércitos de soldadinhos de chumbo, apesar das cores claras ou berrantes; mas todos votados também eles ao apodrecimento. Arrastando também o território, que foi inutilmente violado e esventrado para a instalação de semelhante riqueza. É bem feito: muitos bancos chegaram a financiar ávidos 'promotores', ao mesmo tempo que financiavam os pobres papalvos que queriam comprar as casas 'promovidas'; no fim, ninguém teve dinheiro para pagar. Este nobre esquema, digno de um Madoff-de-trazer-por-casa, acabou em holocausto com os bancos a ficar com as casa nas unhas e encalacrados ao Barcleys, ao UBS e a outros. Cadáveres detidos por outros cadáveres à espera que o um Delegado de Saúde os declare cadáveres. Quanto dinheiro queimado, quantas oportunidades perdidas, quantas vezes todo o ouro do Brasil não terá sido incinerado no Drakar da imbecilidade nacional. E não mudaste nada, Portugalzinho!: agora, no empréstimo mais envergonhante, na dependência mais aviltante, na situação mais degrandante e de urgência, que fazem as nossas 'cabeças pensantes'? Discutem "se é constitucional, se houve quebra do contrato social, se limites estão a ser ultrapassados, etc, etc"; enfim, se os anjos têm uma pilinha ou uma snaitazinha.
Ass.: Besta Imunda
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