sexta-feira, outubro 28, 2011

PIADAS ANTI-CATALUNHA SÃO ANTI-PORTUGAL

A polémica entre Peces-Barba e os catalães deveria ser a polémica entre Peces-Barba, os catalães e os portugueses porque parte de piadas de fundo imperialista, triunfalóide, nacionalista de extracção castelhana. Pelo próprio currículo socialista, Gregorio Peces-Barba deveria guardar no bolso as coisas que lhe passam pela cabeça: a Espanha não é a Península Ibérica. Quando Portugal quis ser independente, esse querer teve sempre muita força, força própria, e quando o quis em 1640, porventura a Catalunha já estaria demasiado aculturada por Castela para lhe resistir como nós resistimos. Visto de cima, o território catalão, talvez pouco mais de um terço do de Portugal Continental, parece incomparavelmente mais fácil de subjugar. E assim foi. Uma questão de escala. Ainda hoje o seu separatismo, que ladra e não morde, é sobretudo fogo de vista porque se existe um sentimento nacionalista catalão, no fundo, ele não parece passar de um sentimento futebolista catalão, o que é muito diferente e muito pouco para não dizer quase tudo de um sentimento nacionalista. Mesmo em 1640, Portugal não era propriamente uma puta para ficar com quem calhasse e de qualquer maneira, señor Barba, apenas porque o chicote castelhano o determinava! Agora, o que eu acho desastroso do lado do protesto a Barba é que 30 advogados tenham abandonado a conferência onde a piada foi escarrada e assim relevado o efeito da brincadeira. Pior ainda foi que decanos de 14 associações catalãs de advogados tenham subscrito um comunicado qualificando de «inadmissíveis» as palavras pronunciadas pelo veterano político socialista. O melhor a fazer era ostracizá-lo e não lhe dar qualquer espécie de antena. As palavras de Peces-Barba não denotam qualquer velho desprezo simultaneamente relativo e absoluto pela Catalunha. Ao contrário, a Catalunha dói a Castela com o mesmo desconforto dos mal-casados que nunca sabem em que ponto do contrato começaram a odiar-se ou a amar-se, ambas as coisas ou nenhuma delas. Aquelas declarações denotam, sim, o velho desprezo absoluto e relativo por Portugal, por quem Castela, tomadas de nós as bordoadas e quis e não quis, nunca teve de sofrer efectivamente um bom ou mau casamento. Sempre vivemos reciprocamente alheados. Para melhor lamber o orgulho e as suas mortes vãs, ao longo da sua histórica impotência para nos dominar, Castela alheou-se seriamente de Portugal como se este não existisse [até há pouco, em qualquer café do lado de lá da fronteira, o mapa da Península ostentava um lugar a ocidente literalmente em branco, sequer um só topónimo identificativo de Portugal], não como alguém se alheia de um espinho esquecido na carne, mas como alguém se alheia de um espinho infelizmente para si irremediavelmente perdido e fora dela, apesar da cicatriz. Em suma, as piadas que ferem susceptibilidades nacionais não podem ser proclamadas nunca, perdendo imediatamente o humor para vestir apenas o mau gosto negro e infeliz do que as pariu, como Peces-Barba. Na Península Ibérica, o nosso separatismo secular vai de vento em popa. É precisamente ele-separatismo a grande força agregadora, o buraco negro vital, que matiza quaisquer laivos de unidade entre as demais singulares nações-resíduo, unidas e separadas, sob a paciente tenaz aculturadora que dá pelo nome de "Espanha", tenaz da qual  e é já muito tarde para lamentá-lo se há quem o lamente , Portugal escapou para se definir doutra maneira. Nem aragonesa. Nem catalã. Nem galega. Nem basca. Nem andaluza. E assim se faz História. Peces-Barba pode bem começar a abster-se de emitir piadas-flato. Já infestou que bastasse.

3 comentários:

Zephyrus disse...

A Espanha continua a não ser unitária do ponto de vista cultural.

Ora vejamos. Em primeiro lugar há uma grande diferença de PIB entre o terço oriental e o resto da Espanha. A Catalunha, Navarra, País Basco e Aragão são grosso modo a Espanha rica, excluindo obviamente a capital, Madrid. A Espanha pobre está a ocidente, em parte devido à exlusão feita pela própria capital.

Vimos as diferenças económicas. Depois há as climáticas. Temos a Espanha atlântica, do País Basco, das Asturias, Cantábria, Galiza. E a Espanha mediterrânica, quase tudo o resto.

Há ainda as diferenças linguísticas, essas bem marcadas. Temos o galego, ou galaico-português, o castelhano, o catalão, o basco, e ainda vestígios do asturiano, leonês ou aragonês. O castelhano afasta-se de todas estas línguas, tal como o basco.

Há tempos vi um velho livro inglês sobre raças europeias. Os portugueses faziam parte das raças atlânticas, a par dos galegos, asturianos, cantábricos, bascos, ingleses, irlandeses, escoceses ou bretões.

Enfim, tanta conversa para dizer que a unidade cultural da Espanha é artificial, e na minha opinião, todos estaríamos melhor com a Iberia separada em pequenos estados, Portugal e Galiza unidos, País Basco e Catalunha independentes, e quiçá Cantábria e Asturias ligados a nós ou também independentes.

Anónimo disse...

as tuas ideias até podem ter interesse
mas o texto inicial é completamente
Piroso!muda-o que só ficas a ganhar...
svp

joshua disse...

Obrigado, svp. Só Deus sabe como valorizo qualquer estímulo.