A polémica entre Peces-Barba e os catalães deveria ser a polémica entre Peces-Barba, os catalães e os portugueses porque parte de piadas de fundo imperialista, triunfalóide, nacionalista de extracção castelhana. Pelo próprio currículo socialista, Gregorio Peces-Barba deveria guardar no bolso as coisas que lhe passam pela cabeça: a Espanha não é a Península Ibérica. Quando Portugal quis ser independente, esse querer teve sempre muita força, força própria, e quando o quis em 1640, porventura a Catalunha já estaria demasiado aculturada por Castela para lhe resistir como nós resistimos. Visto de cima, o território catalão, talvez pouco mais de um terço do de Portugal Continental, parece incomparavelmente mais fácil de subjugar. E assim foi. Uma questão de escala. Ainda hoje o seu separatismo, que ladra e não morde, é sobretudo fogo de vista porque se existe um sentimento nacionalista catalão, no fundo, ele não parece passar de um sentimento futebolista catalão, o que é muito diferente e muito pouco para não dizer quase tudo de um sentimento nacionalista. Mesmo em 1640, Portugal não era propriamente uma puta para ficar com quem calhasse e de qualquer maneira, señor Barba, apenas porque o chicote castelhano o determinava! Agora, o que eu acho desastroso do lado do protesto a Barba é que 30 advogados tenham abandonado a conferência onde a piada foi escarrada e assim relevado o efeito da brincadeira. Pior ainda foi que decanos de 14 associações catalãs de advogados tenham subscrito um comunicado qualificando de «inadmissíveis» as palavras pronunciadas pelo veterano político socialista. O melhor a fazer era ostracizá-lo e não lhe dar qualquer espécie de antena. As palavras de Peces-Barba não denotam qualquer velho desprezo simultaneamente relativo e absoluto pela Catalunha. Ao contrário, a Catalunha dói a Castela com o mesmo desconforto dos mal-casados que nunca sabem em que ponto do contrato começaram a odiar-se ou a amar-se, ambas as coisas ou nenhuma delas. Aquelas declarações denotam, sim, o velho desprezo absoluto e relativo por Portugal, por quem Castela, tomadas de nós as bordoadas e quis e não quis, nunca teve de sofrer efectivamente um bom ou mau casamento. Sempre vivemos reciprocamente alheados. Para melhor lamber o orgulho e as suas mortes vãs, ao longo da sua histórica impotência para nos dominar, Castela alheou-se seriamente de Portugal como se este não existisse [até há pouco, em qualquer café do lado de lá da fronteira, o mapa da Península ostentava um lugar a ocidente literalmente em branco, sequer um só topónimo identificativo de Portugal], não como alguém se alheia de um espinho esquecido na carne, mas como alguém se alheia de um espinho infelizmente para si irremediavelmente perdido e fora dela, apesar da cicatriz. Em suma, as piadas que ferem susceptibilidades nacionais não podem ser proclamadas nunca, perdendo imediatamente o humor para vestir apenas o mau gosto negro e infeliz do que as pariu, como Peces-Barba. Na Península Ibérica, o nosso separatismo secular vai de vento em popa. É precisamente ele-separatismo a grande força agregadora, o buraco negro vital, que matiza quaisquer laivos de unidade entre as demais singulares nações-resíduo, unidas e separadas, sob a paciente tenaz aculturadora que dá pelo nome de "Espanha", tenaz da qual — e é já muito tarde para lamentá-lo se há quem o lamente —, Portugal escapou para se definir doutra maneira. Nem aragonesa. Nem catalã. Nem galega. Nem basca. Nem andaluza. E assim se faz História. Peces-Barba pode bem começar a abster-se de emitir piadas-flato. Já infestou que bastasse.
«After he has suffered, he will see the light of life and be satisfied; by his knowledge my righteous servant will justify many, and he will bear their iniquities.Therefore I will give him a portion among the great, and he will divide the spoils with the strong, because he poured out his life unto death, and was numbered with the transgressors. For he bore the sin of many, and made intercession for the transgressors.» Isaiah 53
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3 comentários:
A Espanha continua a não ser unitária do ponto de vista cultural.
Ora vejamos. Em primeiro lugar há uma grande diferença de PIB entre o terço oriental e o resto da Espanha. A Catalunha, Navarra, País Basco e Aragão são grosso modo a Espanha rica, excluindo obviamente a capital, Madrid. A Espanha pobre está a ocidente, em parte devido à exlusão feita pela própria capital.
Vimos as diferenças económicas. Depois há as climáticas. Temos a Espanha atlântica, do País Basco, das Asturias, Cantábria, Galiza. E a Espanha mediterrânica, quase tudo o resto.
Há ainda as diferenças linguísticas, essas bem marcadas. Temos o galego, ou galaico-português, o castelhano, o catalão, o basco, e ainda vestígios do asturiano, leonês ou aragonês. O castelhano afasta-se de todas estas línguas, tal como o basco.
Há tempos vi um velho livro inglês sobre raças europeias. Os portugueses faziam parte das raças atlânticas, a par dos galegos, asturianos, cantábricos, bascos, ingleses, irlandeses, escoceses ou bretões.
Enfim, tanta conversa para dizer que a unidade cultural da Espanha é artificial, e na minha opinião, todos estaríamos melhor com a Iberia separada em pequenos estados, Portugal e Galiza unidos, País Basco e Catalunha independentes, e quiçá Cantábria e Asturias ligados a nós ou também independentes.
as tuas ideias até podem ter interesse
mas o texto inicial é completamente
Piroso!muda-o que só ficas a ganhar...
svp
Obrigado, svp. Só Deus sabe como valorizo qualquer estímulo.
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