sábado, junho 02, 2012

A FAMÍLIA LYNCE E OS PARREIRA PÁSCOA

Amo apaixonadamente todo o Alentejo e o extremo sul-litoral do distrito de Setúbal. Estar lá, trabalhar lá, viajar para lá foi, para mim, uma experiência mística. Agora o crime subjacente ao excerto que adiante cito devolve-me os topónimos do meu amor apaixonado, evoca-me as brisas, o calor e a luz, as copas infinitas dos pinheiros mansos e o seu olor inebriante. Mas remete-me também para os transes das narrativas, repletas de sangue e contexto alentejanos, produzidas por Manuel da Fonseca, amigo de Baptista-Bastos que sempre o evoca com caloroso afecto. Nem é preciso explicar porquê. Quanto a este crime em concreto, na sua loucura sempre asquerosa, fica a amargura por duas tensões irredutíveis, ou acalentar o tesouro da memória testemunho e herança, ou dissipar tudo em vaidade hedonista que cega e tresmalha. Guilherme escolheu a pior parte e morrerá com ela, se é que já não está morto como o senhor Tijoleiro, de Hermann Hesse: «Passar a cancela da Herdade da Lezíria é como entrar noutro país. Quilómetros de pinheiros e sobreiros, por estrada de terra, uma calma imperturbável, acompanhada de brisas quentes e chilreios de pássaros. Virando na direcção do rio, chega-se à povoação do Forno de Cal e, logo a seguir, à fábrica de arroz Lynce. Depois, cruzando um riacho, chega-se ao Monte da Herdade da Lezíria, que pertence a Guilhermina, outra das filhas de Francisco Serra de Sousa Lynce, o avô de Ana, Marta, Alexandra e Guilherme Parreira Páscoa. E um pouco abaixo situa-se outro Monte, que até há pouco era propriedade da família Bivar Parreira Páscoa. Ainda há dois anos Guilherme lá tinha uma dúzia de éguas, diz o caseiro de um dos Montes. Depois vendeu a um investidor baseado na África do Sul. Um pedreiro ucraniano está agora a dirigir a obra, do que será um empreendimento de turismo rural.Pouco a pouco, Guilherme, que possuía uma procuração da mãe, Maria Guilhermina Lynce de Bivar Branco para movimentar as propriedades familiares, foi vendendo a herdade em parcelas. Neste momento, segundo os vizinhos, a família já não tem nada ali. É proprietária, sim, de um outro Monte, quase da mesma dimensão, situado na outra margem, perto da povoação da Barrosinha, na estrada que segue até ao Torrão: o Monte de Vale Ferreira.» Público

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