«EQUADOR» EM BRASUQUÊS
Os portugas são umas bestas muito mal assumidas, mesmo. Acanhados e fracos, a começar pelo célebre romancista apalermado ou encanitado com professores, MST. Quando estive no Brasil, foram muitas respeitáveis mulheres, já com décadas de novelas, a dizer-me: «Portuga, eu adoro o seu sotaque português!» Nem sequer podem familiarizar-se e matar o desejo de nos ouvir e tentar entender ao natural, por muito esforço que isso efectivamente ou aparentemente envolva. É uma pena ficar o portuga com o seu talento escondido no armário e o brasuca mais pobre com a sua sacra auto-suficiência linguística continental, que não se pode quebrar, que não se pode romper, aquela impermeabilidade musical ao nosso consonantismo vocalofágico, assim confirmando a quantas vezes mera resistência preguiçosa e etnocêntrica brasuca, incentivada como um facto consumado por certas luminárias de lá e de cá. Não o fazem os norte-americanos com os ingleses nem os ingleses com os norte-americanos. Ninguém se submete, conceito vergonhoso tratando-se de Língua ou Cultura ou Sangue ou Tradição. Habituam-se e pronto. Primeiro estranha-se, depois entranha-se, depois ama-se porque isto da língua é troca, é reciprocidade. Deveria ser, caso não nos tutelem frouxos como os acordortografistas sob o malfadado Governo Primadonnista socratino. Agora que «Equador», série de época estreou 2.ª-feira na TV pública brasileira, seria uma belíssima oportunidade de lhes servir o português europeu ao natural enquanto, pela primeira vez, esta nossa língua e esta nossa cultura faziam de conta deixar de ter vergonha de existir. Já basta o que basta com a cediça e super/ultra vexata quaestio do acordo abortográfico abdicacionista.

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