LIXEIRAS SECRETAS


Até sermos arrolados na sua devastação, nunca nos é dado imaginar como alguém, no seu caos endémico, pode interferir e afectar toda a gente à sua volta por estar deprimido. A depressão de que ele me falou está aí, desmobilizando-o da luta diária, servindo-lhe de pretexto para a sua desistência doentia de si mesmo, desencadeando-se violenta e selvagem sobre aqueles que deveria proteger e amar. Ninguém o pode contrariar nas suas teses de dinheiro fácil. Ninguém pode arrastar o tapete ilusório de receitas ilusórias onde apoia uns pés irrealistas, para devolvê-lo à realidade-granito frio de ter de começar do zero pela infinitesimal vez. Não há imunidade para os demais ao lixo que se enclavinha no coração de um homem insatisfeito na sua pele, na sua história, cego de nascença em relação ao seu tesouro. Nem o sexo, nem a festa, nem a família, nem a bebida, nem o futebol nem absolutamente nada o resgatará do fosso profundo a que se remete ensimesmado. Mil novenas que se rezassem, mil pregações laicas e racionais cheias de um fogo de apostolado anticlerical, mil actos espíritas e áfrico-animistas, nada pode reerguer um homem tornado a si mesmo o Perfeito Desajustado, vítima da ansiedade do dinheiro e do enriquecimento, do sonho do regresso em triunfo exibicionista, da vistosidade e do poder que escorrem como um mel devorador de insectos rolando compressor por sobre eles, resina de há milhões de anos rolando sobre eles, até ao ambar do esquecimento, milhões de anos depois. Ele tem sido o Catrina que tomamos por familiar e natural, com os seus destroços inumeráveis, mortos e desaparecidos no processo, e sempre pronto a reeditar-se e a não aprender as velhas lições
da contenção e da humildade. Tive sempre um Sacro Escudo para tudo, mas nunca pude proteger-me de espíritos autofágicos de caos crasso desabando por perto de mim, percutindo os seus efeitos desorganizadores sobre mim. Pobre de mim!

Comments

Unknown said…
Josh...
meu reptiliano amigo...
A depressão alheia deixa-nos sem imunidades... parece sempre que podemos fazer alguma coisa para ajudar, mas nunca depende de nós pois não?
A imunidade tem de começar por nos sentirmos alheios a essa depressão... por vezes é quase impossivel!
Joaninha said…
Como conheco tão bem aquilo de que falas, remeto-me ao silencio atento e presente.
Um bj

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