quarta-feira, outubro 02, 2013

ABSTENÇÃO, GÉMEOS SEMEDO E PASSOS

Há uma cómica homologia entre Passos Coelho e João Semedo do BE e quem diz Semedo, diz Catarina. Homologia não só na escala da derrota autárquica, os extremos tocam-se, mas no preço político da inexpressividade e do negativismo de uma liderança ainda que numa liderança a meias. Nada mais fatal em termos políticos. Numa análise superficial ao discurso de ambos ou deste tríptico-de-pele-e-osso, a mensagem que predomina é negativa, derrotista, formalista, passa desapontamento e não carreia esperança, não tem capacidade para insuflar ânimo. Entre ele-Passos e um cangalheiro não há diferença: a face é funérea por defeito profissional. Passos quer desempregar em larga escala no Estado. É uma necessidade. Semedo celebra ou fantasia as derrotas relativas da Direita, insulta e rebaixa a Direita, mas não tem nada de seu a celebrar, nenhuma vitória aporta à Esquerda, nenhuma esperança tem a dar, senão a secura do fim do mundo e o desalento chova ou faça sol. Do outro lado da barricada retórica negativa e depressiva comum à bina Passos / Semedo-Catarina, não temos no Lágrima Seguro ou no Testosterona Costa, pelo contrário, os portadores da esperança, da confiança e da alegria, mas os simuladores de alternativas, os porta-estandartes do Favor Político e da Empregabilidade Política, conforme os velhos genes socialistas. Os socialistas têm um especial instinto de emprego com eles, só que um emprego à pala do Estado, um emprego favoritista, um emprego pela multiplicação de cargos, de tretas, da grande teta da cultura ao grande chupismo solene dos que se aproximam do grande mamilo de Esquerda que os socialistas maquilham de túrgido, mas anda sempre ressequido, pago pelo resto da maralha nacional com sangue, suor e lágrimas: com Testosterona Costa, Lisboa corre o risco de se tornar, isto é, de continuar ou ampliar um oásis para este tipo de liberalidade só para amigos na mesma proporção com que o Príncipe Independente Moreira CDS-PP, no Porto, sentado na sua liteira aristocrática de ouro, paralisará o Porto nas boas contas, petrificará o Porto na gestão corrente, ele que não deu às turbas porcos assados nem gajas roliças pimba a dançar e a cantar para ser eleito nem dará manuais escolares grátis do 1.º ciclo a todos os pais da cidade, folgados ou apertados. Isto traz-me à ideia a conclusão pela letal letargia e imbecilidade corrupta de uma parte dos portugueses que vota. Está na hora de responsabilizar os portugueses que votam ou não votam pela qualidade de merda dos seus votos. Perante a emergência nacional em que nos encontramos, nos mais variados âmbitos, os portugueses não comparecem em massa para votar. Enterram a cabeça na areia. Alheiam-se. A intervenção externa produziu e vai continuar a produzir um vasto oceano de excluídos. Na hora sagrada do voto, cada vez menos de nós se atrevem ou exercê-lo ou a passar para lá da barreira do voto nulo ou branco, como se o exercício do voto expresso não contivesse uma mensagem construtiva, algo que o voto branco não possui nem o voto nulo nem a abstenção. Como um tumor, este fenómeno de alheamento cívico alastra e compromete a legitimidade dos eleitos, eleitos por muito menos de 50% de eleitores. Compromete a saúde do Regime: abaixo de 50% de votantes a exercer o seu direito, o que esses mais de 50% estão a declarar é guerra ou a nulidade mesma do Regime. Se cada eleição continuar a ser um plebiscito de garantida rejeição ao Regime, quando forem 30% de votantes a escolher pela vez de 70% abstinentes desse direito, quanto faltará para só votarem os militantes, só votarem os membros e a cúpula dos partidos e mais ninguém, Governo minorca gerado pelas minorias e servo das minorias dos que nele votaram?! Nestas autárquicas, dentro dos totais absolutos nacionais, somando os que não votaram, os que votaram em branco e os que votaram nulo, o resultado é uma abstenção de 55 %. A abstenção revela a vergonha da acção política em Portugal, revela a desmobilização cívica em Portugal e a mais crassa falta de esclarecimento em Portugal. Não foram os partidos políticos que acobertaram a nata da inoperância e da corrupção. São os próprios portugueses, no seu todo, que se tornaram cínicos e o seu cinismo cívico constitui o primeiro sinal e a primeira manifestação de corrupção à partida: não há maior forma de corrupção que a recusa em mudar, em punir, em censurar, em exigir, subjacentes ao voto expresso. Ninguém nos condena. Nós encarregamo-nos de nos condenar. Pela negativa, como Passos. Pela desesperança, como Semedo-Catarina.

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