quinta-feira, outubro 31, 2013

AO ZELOSO CUIDADO DO DR. RUI MOREIRA

«É apenas mais um fim de tarde de uma quinta-feira, Alfa Lisboa--Porto das cinco da tarde cheio ou esgotado, como sempre. Quase três horas de viagem pela frente, um ambiente de resignação, mais uma viagem à capital para toda esta gente: advogados, funcionários do Estado, pessoas em ações de formação que regressam, quadros médios e superiores, ou apenas viajantes. Hoje faço parte desta última categoria. Uma agência de viagens que nos manda (um grupo de 10 pessoas) para Estrasburgo através de um voo para Frankfurt, seguido de autocarro por mais (quase) três horas até à cidade francesa. E tudo via Lisboa. Resultado: uma dezena de pessoas a dormir poucas horas nos Ibis de Lisboa para poderem estar antes das seis da manhã na Portela. E depois, tudo igual no regresso, de novo por Lisboa... Uma peregrinação só para se chegar a uma cidade francesa tão próxima - três dias gastos, más noites, tudo para um dia e meio de trabalho... Um responsável do aeroporto Francisco Sá Carneiro disse-me há uns meses que havia 700 mil passageiros a passar pela Portela vindos do Porto - e só não eram mais porque as ligações entre as duas cidades portugueses são pouco frequentes e estão sempre cheias (e atrasadas). E dava exemplos, do ponto de vista estratégico, que eram imperdoáveis: a TAP não ter a rota Porto-São Paulo diária e não ter arriscado o Porto-Luanda com mais frequências (talvez mesmo diárias). Perguntei à TAP o que achava disto e a resposta foi a de que se houvesse procura, haveria voos. A verdade é que a transportadora aérea angolana (TAAG) ocupou esse mercado do voo direto Porto-Luanda com êxito e, para São Paulo, como não há concorrência à TAP, não é possível demonstrar que a ligação teria mercado. Assim sendo, a TAP não desiste de nenhum dos voos Lisboa--São Paulo em detrimento do Porto - e continua a enchê-los também com pessoas do Norte, enchendo a 'saturada' Portela. O Porto perdeu há já alguns anos as grandes companhias de ligação ao Mundo. Não há British Airways, Air France, KLM, e portanto, não há quase concorrência à implacável eficiência da Lufthansa e do seu 'hub' mundial em Frankfurt. Ela tornou--se a única companhia possível para homens de negócios e quadros médios/superiores de empresas ou universidades a partir do Porto. Dizia-me esse diretor da ANA que se a Turkish Airlines criasse um Porto-Istambul diário (ou pelo menos frequente), este rodopio de escalas obrigatórias por Lisboa ou Frankfurt mudaria e os passageiros ficariam com um 'hub' muito mais direto na Ásia. Não sei se alguém consegue bater a Lufthansa nesse capítulo (os alemães até para Teerão têm voos diretos). A verdade é que a Turkish nunca chegou a arriscar ter alguns voos semanais entre Istambul e o Porto. Questões como a dos voos internacionais é cada vez mais importante para fixar 'cérebros' e homens de negócio que não se saturem de passar a vida em aeroportos e aviões, em eternas escalas, nos piores horários, apenas porque trabalham ou vivem aqui. As companhias low-cost são muito importantes para o turismo (como se viu com os números apresentados esta semana). Mas não resolvem as ligações com voos sequenciais de quem vai fazer reuniões profissionais depois de horas infinitas à espera, nos aeroportos, por ligações entre voos. São estas pessoas que vão determinar o sucesso do Norte do país. Embora sendo apenas uns milhares (10 mil?) a vida desta região depende delas. Sem boas ligações aéreas e excelente qualidade de vida não haverá estrangeiros de qualidade a quererem fixar-se no Porto para criar negócios ou dar aulas em segmentos de ensino com excelência. Daí a importância de o Norte necessitar de alguém que fale com a nova monopolista dos aeroportos nacionais, a Vinci, e não a largue um segundo que seja. Ninguém sério pode esperar que seja o secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, depois do vazio que criou durante meses no Porto de Leixões ou a pouca atenção que deu às novas linhas ferroviárias, a zelar por algum dos interesses da região. Este é um trabalho talhado para o novo presidente da Câmara do Porto e uma das missões essenciais e concretas da Liga das Cidades do Norte.» 

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