LUTO. PUTREFACÇÃO. PENÚRIA
«Hoje o País, a nação, estão de luto; e estão de luto porque é o nosso estado (por nós próprios...) há largos meses. Hoje de manhã, e nesta manhã que findou quente, poeirenta, mole, com mau cheiro no ar — a sarjeta seca e a cadáveres de roedores mortos, invisíveis aos olhares; quase similar ao cheiro a podre das dunas das praias escaldantes. Costa 'recebeu' o PR, Passos e a restante malta-política no balcão da CM para mais uma encenação da implantação da república — que se transformou num crasso cerimonial sem sentido: mais distante que o 25 de Abril, mais carunchoso que a mobília do regime, mais velho do que qualquer pessoa viva — e todavia sem qualquer glória ou heroísmo compreensíveis. Nem a 'república' portuguesa inventou a Liberdade, nem acabou com as desigualdades, nem conduziu ninguém ao Progresso nos moldes idealizados. Os circunstantes, os protagonistas deste ritual 'estavam lá' porque a isso estão obrigados; e não há discurso, apelos que cheguem para mitigar o indisfarçável mal-estar que era detectável nos semblantes. O tempo, a dívida, a penúria, a época não estão para brincadeiras. E como as comemorações e as datas importantes em Portugal foram todas esvaziadas de sentido — ao mesmo tempo que a noção ou conceito de Pátria era ridicularizado — não se consegue extrair destas reuniões-obrigações regimenteiras qualquer utilidade. São inúteis para o povo, são inúteis para o crescimento económico, são inúteis para a seriedade. Oportunidade perdida. Parece que quanto mais irrelevante é um país, mais 'datas', bandas de música, feriados e folgas tem.» Besta Imunda
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