SINAIS PRECURSORES DE GRANDE PACHORRA

Falo por mim. Reconheço que as medidas ontem anunciadas por Passos equivalem ao rapar dos ossos da classe média pela matilha de hienas em que os Governos se transformaram ao representarem antes de mais, não os seus povos e a sua dignidade defendida e promovida, mas o enorme estado de carência que corresponde ao problema bancário europeu. Depois há demasiada hipocrisia. Simplesmente, eu já havia começado a saborear o fardo destas injustiças e castigos muito antes de se converterem nestas medidas concretas governamentais. Ao ver o rumo que o País tomava, tornei-me antecipadamente austero comigo mesmo, despojei-me do automóvel e de certas coisas essenciais transformadas em supérfluas, apenas para que a austeridade da minha mulher e das minhas filhas pequenas fosse um pouco menor, mera ilusão. Esse contorcionismo tornou-se rotina e possibilitou o cumprimento de um projecto sonhado. Assim são as solas das sapatilhas que rompo e é uma refeição a menos diária que tomo. E quando o meu peito e as minhas costas se ressentem, não tenho alternativa a não ser erguer-me, aprestar-me e partir para mais um dia de luta. Evidentemente que me revolto que os fortes sejam mesquinhos com os frágeis, vindo cobrar avaramente o mínimo que lhes seja devido, como se os devedores pudessem fugir ou sequer lhes passasse pela cabeça não pagar. Isso está a acontecer comigo: uma avaliação manhosa por um Banco de um imóvel perdido e lá anda o tanso a pagar por anos o que já perdeu e de que jamais usufruiu. Os que têm deixam-se cair na mesquinhez de cobrar o que os pequenos mal ganham com os juros e o tempo que lhes convém. Porém, o que é notório não é a ebulição social nem qualquer revolta conjugada pronta a inundar as cidades, muito embora a crispação já ande no ar e eu a sinta, por andar a pé e contemplar milhares de rostos e estados de vida todos os dias. Em vez de manifestações, coisas a arder e montras estilhaçadas nas praças e avenidas nacionais, é bem mais simples a pequena crise do dia a dia, na rua, em casa, com mais discussões no trânsito, com insultos mais acesos e mais azedos, e eventualmente, o que não é nada português, com o maravilhoso chegar a vias de facto na graduação natural e variável: o soco, o bastão, o revólver. Pessoalmente, estou pronto. Apeei-me antecipadamente das ilusões colectivas e dos optimismos criminosos. Experimentei o desemprego prolongado. Ganho absurdamente mal. Já procedi aos meus cortes, ainda assim. Sei bem o que seja sofrer. Mas reencontrei uma estranha alegria de viver as minhas privações e os meus sacrifícios, o mais delicioso deles andar a pé em torno de cinquenta quilómetros/semana, de e para o metro que me conduz ao trabalho: fica tempo sobejo para observar as marradas de touro colectivas nas mentiras mais reluzentes e para pensar de onde me virá o alento para seguir inquebrável e incontaminado por entre tanto lixo.

Comments

Anonymous said…
A eliminação do subsídio de férias e do 13º mês só vai afectar os trabalhadores da função pública, que, como os socretinos se devem lembrar, foram o alvo de ataque principal e privilegiado do Pinto de Sousa, do seu governo e da propaganda socretina, que os apelidou de preguiçosos, absentistas, privilegiados, avessos à avaliação e os acusou de receberam salários muito superiores ao sector privado. Na altura os socretinos aplaudiram essa campanha anti-funcionário público e defenderam o espírito «reformista» do Pinto de Sousa. Por que é que agora se mostram tão «escandalizados» e «indignados» com o Passos Coelho?
Os cortes nas àreas da Saúde e da Educação também não são novidade nenhuma. O Pinto de Sousa iniciou e promoveu o encerramento de escolas e centros de saúde, e dispensou uma grande número de professores e outros funcionários públicos com contratos a prazo (que renovavam todos os anos). O Passos Coelho só está a dar continuidade a essas políticas de abate da «gordura» estatal. Como o Pinto de Sousa dizia há uns anos, o Estado não é nenhuma agència de emprego, e por isso o ideal até era voltar ao tempo da telescola (que até podia ser magalhãescola, para se parecer mais moderno) e dispensar todos os professores, menos um. Por que é que agora os socretinos se mostram tão «indignados» e «escandalizados» com o Passos Coelho?
Depois, acho um piadão aos socretinos quando se lamentam por o povo português «comer e calar», por não protestar, por não se manifestar contra as medidas anunciadas, quando estes mesmos socretinos atacaram no passado todos aqueles que saltaram para a rua, ou que fizeram greves, no tempo do Pinto de Sousa: desde os professores, passando pelos «precários inflexiveis», ou pela «geração à rasca», todos estes grupos foram insultados pelos socretinos, apelidados de corporativistas ou como uma geração mimada que não suporta dificuldades, nem o «mundo competitivo moderno». Por que é que agora os socretinos se mostram tão «escandalizados» e «indignados» com essa abstracção designada como «povo português»?
Por que é que os socretinos não saltam para a rua e não dão o exemplo ao «povo português», que é constituido na sua maior parte por resignados e por tipos sem capacidade de reacção? Os socretinos já nos mostraram que são diferentes do «povo português», e que têm a energia e a iniciativa necessárias para fazerem manifs, como as suas excursões aos comícios e às sessões de propaganda do Pinto de Sousa nos lembram. E aí, realmente, ninguém os parava…
Miguel said…
O abraço das tuas filhas, quando chegas a casa, não vale o sacrifício?
joshua said…
Completamente, Miguel. E vive-se dele, do...

Abraço.

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