quarta-feira, setembro 26, 2012

TENHO VISTO MORTE

Todos os dias caminhava mais de dez quilómetros, atravessando a Avenida da República, Gaia, e depois o todo o Bolhão, Porto, para ir e voltar do trabalho. Às vezes, mesmo com uma larica impiedosa a incendiar-me as entranhas, não entrava em lado nenhum, em nenhum estabelecimento, aguardando pacientemente o embalo do autocarro para só depois, chegado a casa, morfar qualquer coisa. Gravaram-se-me os rostos sulcados do Bolhão, a juventude tropical da Avenida da República, no primeiro caso, a quantidade de ociosos encostados às paredes ou de cócoras, no segundo. Em contraste com tanta ruína, turistas, milhares de turistas varam a minha cidade Porto-Gaia todo o santo ano: orientais, nórdicos, mirando metodicamente as nossas paredes e longes. Quantas vezes me perguntei onde pára certamente tanto dinheiro despendido por estes estrangeiros abismados com o Porto visto de Gaia e com Gaia entrevista do Porto. Por que não o sinto em lado nenhum? Por que motivo, se por azar e moção raríssima passo por um tasco na Ribeira, a comida sabe a merda e sou tratado à pressa como se com essa pressa o dinheiro lhes fosse mais abundante, corrida contra o Estado para enriquecer depressa e basar daqui?! Agora não saio de casa. Não gasto um cêntimo a não ser nas mesmas fraldas, nos mesmos iogurtes, nas mesma vitualhas que alimentam as filhas e permitem ir passando assim, assim. Reparo que estou só. A não ser o fervoroso acto de blogar quotidiano, a minha solidão social é proporcional ao civismo rasca que consente a contestação descabelada ao encerramento e corte mamante das Fundações, basta ouvir o fórum da TSF para ver como Portugal, além de desgovernado, se ingoverna e a miséria mental e cívica é lei. Quem vê e ouve Soares vê um egocentrismo geral que horrorizaria um dinamarquês. Estou fodido, embora menos quando algum raro leitor amigo, algum admirador sincero desta tarefa, tem um discreto gesto que não lhe pese. Não ter esperança é como estar morto e só ver morte. A minha paisagem começa a tornar-se demasiado monótona.

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