quinta-feira, maio 23, 2013

FOI-LHE TÚMULO O MAR

Um dos que ali morreram foi aquele que, dando a mão a Deolinda, lhe dissera: «Adeus!»

Era um homem de trinta anos, bem figurado, ares de fina raça e maneiras de cortesão, com palavras polidas e muito alheias das usuais nos homens que viandam por aquelas paragens. Não lhe sei o nome, nem que lho soubera o diria. Foi-lhe túmulo o mar, como se a sorte quisesse que o seu nome se não lesse em epitáfio. Sei que ele cumprira a sentença de três anos em Angola, porque aspirara às honras de ser rico, sem escrupulizar nos meios. Tinham-lhe dito que os seus contemporâneos mais nobilitados se haviam enriquecido trocando as riquezas de sã consciência por outras que levam ao inferno, é verdade, mas pelas portas do paraíso das regalias deste mundo. Via-os saborearem-se em sossego dos bens mal adquiridos, sem remorso que lhes desvelasse as noites, nem injúria da sociedade que lhes pusesse ferrete na testa; ao revés disso, eles era a classe mais ao de cima, a gente chamada às honras, sem desconto na estupidez nem proterva reputação à procedência dos seus bens de fortuna.

Nascimento ilustre, educação primorosa em letras e bastante descuidada em moral, pobreza repentina por efeito de demandas que o esbulharam do património, impaciência, ruins exemplos de infames prosperados — todas estas cousas se travaram de mão para o perderem. O seu crime foi associar-se desaproveitadamente com moedeiros falsos, prestando-se a servir de passador de notas no Brasil; no acto, porém, de fazer-se à vela para lá, de um porto do arquipélago açoriano, foi denunciado, preso e condenado.

De volta para Portugal, foi visto por Deolinda a bordo da galera de seu pai, que o tratava com desdém, senão desprezo. A filha do negreiro — negreiro no começo da vida mercantil, mas depois (bendita seja a civilização!) filantropo seguidor das leis humanitárias impostas pelo cruzeiro — soube de seu pai o crime do passageiro e não se compenetrou do racional horror de tamanho delito. Bem que o condenado não ousasse abeirar-se dos mercadores, e menos dela, Deolinda usou traças de conversar com ele uma fugitiva hora de noite serena, enquanto o pai, no seu camarim, formava esquadrões de algarismos, dos quais tirou a prova real de que os seus haveres excediam para muito os duzentos contos que lhe atribuíam.

Desde essa hora da noite estrelada em que ela ouvira palavras nunca ouvidas, acendeu-se no coração combustível da mulata o fogo que costuma purificar as culpas do homem amado, tanto monta que ele seja moedeiro falso, como homicida, quer negreiro, quer ladrão de encruzilhada.

E ele soube que era amado daquela mulher que havia de herdar muito ouro, e nem por isso lhe deu o galardão de ter descido até ao pobre estigmatizado para sempre. Nem palavra de humildade agradecida, nem desânimo alvoroçado por esperança de ser, a um tempo, amado e rico. Deolinda ousou argui-lo de frio e desdenhoso. Ele explicou docemente a sua frialdade, dizendo que só havia no mundo uma mulher que não devia desprezá-lo, e uma só a quem ele devesse amar sem pejo nem temor de ser repelido.
— Quem é? — perguntou ela em sobressalto.
— É minha mãe. Vou procurá-la e pedir-lhe perdão, porque pus a minha ignomínia à cabeceira do seu leito de moribunda. Se a não mataram vergonhas e saudades, é porque Deus quer que eu a veja.

Quem sabe aí dizer o que Deus quer de nós?

O degredado, na volta da pátria, ali morreu naquele naufrágio, depois que ajudou a salvar as crianças, as mulheres e os anciãos, despedindo-se de todos com aquele sereno adeus que dissera à filha do Africano.

E Deolinda, quando soube que ele era um dos vinte e cinco cadáveres escalavrados na costa de Cabo Verde, chorou poucas lágrimas, e parecia querer romper no seio uma represa delas, que lhe deliam os estames da vida.
— Estamos pobres! — exclamou o pai.
— Temos de mais para o que havemos de viver, — respondia ela com uma alegre serenidade.
— Por que hás-de tu morrer, minha filha? — volvia ele, já conformado com a desgraça.
— Porque senti há pouco um estalo no coração, e cuidei que morria abafada. Passou esta ânsia, mas sei que hei-de morrer disto. Parece que vejo a sepultura aberta e que o frio do cadáver me trespassa.

O pai aconchegou-a do seio, como quem aquece uma criança enregelada, e soluçou:
— Ó meu Deus, levai-me minha filha quando eu me queixar da vossa vontade que me reduziu a esta pobreza!

Camilo Castelo-Branco, Aquela Casa Triste...

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