terça-feira, maio 28, 2013

MIA POUCO

Gosto imenso da produção mia-coutoniana e não poderia deixar de elogiar este prémio, pelo escritor e pelo homem, um humanista em que me revejo em traços gerais, embora me pareça estar algo ausente dos seus textos aquela autocrítica ideológica de que a oscilante democracia em Moçambique carece. Afinal, a paz sobreveio à política da guerra, não à guerra da política, mas o mundo não mudou o suficiente. O homem e a sociedade moçambicanos são os mesmos lá, onde poderiam ter crescido e progredido, tratando-se de um povo bom e afável. A espécie humana é o que é. Nem nova. Nem velha, embora o Espírito a impulsione rumo à Santidade [Justiça] que germinará da Terra, semeada pelos Céus. A carne resiste. Um escritor como Mia Couto, com amplo e aclamado sucesso na Lusofonia, tem acrescidas responsabilidades: há uma reflexão permanente a fazer e uma exigência ética a exercitar perante revoluções que não revolucionam senão na troca das suas elites, na troca dos seus corruptos, na troca dos seus régulos. Escrever é olhar para trás buscando as marcas da perenidade e do amor que inspiram e nos levam em frente, mas deve espelhar e descrever os problemas pelos quais alguns jornalistas e activistas moçambicanos têm perdido a vida. Os que tombam sim, revolucionam. É demasiada coragem e demasiado engajamento com a realidade dos seus concidadãos para não pagarem o preço máximo.

1 comentário:

Anónimo disse...

Miar, mesmo que seja pouco, é sempre melhor que lamber botas como o senhor faz.
Tenho dito!