segunda-feira, maio 13, 2013

O MIGUEL QUER MATAR PASSOS COELHO

É oficial. A semente merdosa do excesso foi lançada. Palavra puxa palavra e o Miguel, que só sabe assinar o próprio nome, quer matar Passos Coelho. Pediu-me, quando me viu passar esta manhã, que lhe preenchesse um formulário para receber dinheiro de um irmão, que está na Áustria. Fi-lo com gosto. O Miguel é um bom vizinho de décadas. Trabalhava na recolha dos lixos nas praias do Concelho. 47 anos. Está desempregado. Findo o preenchimento da papelada e algumas recomendações burocráticas, abracei o Miguel. Desejei-lhe sorte e mostrei-lhe que o seu barco é o meu barco. E ele, com a lágrima no canto do olho rebrilhando ao sol das onze horas, disse-me que, por vezes, se sentia meio perdido, tirando a bebedeira e a directa à conta da vitória sobre o 5LB, no último sábado. Era capaz de dar um tiro no filho da puta do Passos.


Democracia. Esmaga-nos de abusos sem que o sintamos quando tudo corre bem aos chupistas e aos donos do Regime, como os Soares e os outros iguais ou piores que ele, esses que agora manobram e gritam porque lhes toca a eles também perder dinheiro, isto é, perder capacidade de influência e a sementeira de lealdades. Deita-nos a perder quando, por aqui e por ali, nos obrigam a corrigir décadas de chupismo, paralisia económica e gastos acima dos ganhos. Uma crise é uma faca. Desmancha-nos. Desnuda-nos as certezas e confronta-nos com a verdade mais dura e a crueldade mais cruel: viver prudentemente, nunca mais depender do ovo no cu da galinha. Quer os que ficam, quer os que emigram, todos sabem e reconhecem algumas verdades postas de molho quando o dinheiro era fácil. Mas não o Galamba: tem mais cu de galinha que ovos, pois prescreve para o País a grande e mirífica solução de seguirmos com mais olhos que barriga

Foram décadas de amiguismo, proteccionismo de cúpula, socialismo de cúpula, conluio banca-políticos, corporativismo partidalhento, clientelarismo partidocrata, basta imaginar o modo como certos altíssimos dignitários e ex-dignitários tratam os polícias que os escoltam para percebermos uma altivez e a intocabilidade de casta que nunca poderiam ver e assumir a nossa miséria. Se foi o bom senso que nos levou a votar sucessivamente no Erro e na Má Fortuna que se traduziram em líderes de Governos Filhos da Puta, formos traídos. Uma e outra vez traídos pela covardia endémica dos partidos e dos Governos do passado até às decisões embaraçosas e inelutáveis do presente. 

Emprego e investimento, eis do que precisamos com a máxima urgência, mas se nos pusermos a sangrar nas ruas, se o caos e a estupidez rebentarem porque os Partidos são covardes, escamoteiam os factos e as verdades obrigatórias, censuram medidas chocantes, mas nada contrapõem, têm medo de fazer o que devem, preferindo o cinismo da grande rasgação de vestes, como o PS, ou o choradinho tacticista do CDS-PP; se a polvorosa e a furibundice andarem à solta, nem investimento, nem empregos nem coisa nenhuma, isso é certo. É muito chato ter os olhos do mundo colocados na nossa capacidade de observar e respeitar tratados e propósitos assumidos, mas é tudo o que temos. Toda a raiva helénica só logrou piorar o que já escorria grave, afastando turistas, cavando hesitações, medos e dúvidas nos mercados e investidores. No meio disto, que o meu vizinho Miguel, que não molesta uma mosca, desabafe querer matar Passos, é compreensível, dada a facilidade com que velhos imbecis manipulam o jogo político, o primarizam, e colocam as suas teses cínicas em movimento. Continuo a insistir: os soares, todos os velhos parasitas e chupistas do Regime, todos os sócrates e os diabos das comissões por cada negociata ruinosa, causaram mais danos e malefícios às nossas vidas que dois anos de medidas e acções remediativas, amedrontadas com os fortes, secas com os fracos, tudo tutelado e encorajado por organismos externos aos quais se baixa a bolinha ou nada feito: de fora se vê fria e objectivamente o que deve ser feito em Portugal, ainda que constitua uma insondável crueldade e um escândalo lesa-compromissos eleitorais. Há um bem maior que a falência e o abismo, ó recordistas da democracia que nunca passais sem o comentário de quem está pronto a linchar e a enforcar a opinião contrária! 

O taxista que me trouxe a meio caminho de casa, depois de ter sangrado setenta euros com uma filha no oftalmologista, é sul-africano, está cá há vinte anos, e sustenta que a nossa economia ainda não é de mercado, que o mercado de trabalho é conformista, petrificado, tem terror à mudança, características apreciadas em economias mais audazes e que fazem dos países ricos mais ricos. Deve ter razão. Alguma coisa não estava nada bem em Portugal. Resta a esperança de que passe a estar. Não se pode é combater a antidemocracia da Troyka com a antidemocracia das igrejas exclusivistas de Esquerda, com os urros e berros duvidosos e escandalizados dos virginais capitães da Esquerda hipócrita de conveniência como o lacrimal crocodiliano PS, europeísta no que lhe convém, engonhante quando a pílula da cura estrutural proposta pelo Centro de Decisão Europeu é demasiado amargosa e só há um Governo, aliás fracturado, a defendê-la. Vamos odiar a quem? Ao Zeca Barroso, à Avó Merkel, à alternadeira Lagarde?! A quem?!

Ao Miguel, um honrado trolha que ainda o ano passado fazia 1600 euros a recolher lixo de sol a sol, horas extraordinárias sobre horas extraordinárias, sono e trabalho, trabalho e sono, pode até apetecer matar Passos Coelho. Disse-lhe: «Compreendo, Miguel, mas olha que, se isso resolvesse, não te chegavam as balas para limpares os parasitas, os causadores dos nossos males, todos os que ainda há um par de anos juravam o céu ao dobrar da esquina, enquanto lucravam pessoalmente com os negócios mais danosos ao Estado e aos Cidadãos, pelo que esse não é, não pode ser, o caminho.» Nenhuma morte lavaria toda a desgraça-desemprego que vai por esse Portugal e não é de agora. Não seria com Marcelo que decisões duras seriam tomadas. Nem com Seguro. Respeitar ou levar a sério Passos é talvez muito difícil, mas quem sobra de respeitável por aí?! Há alguma figura que nos concite a confiança, que transborde de prestígio?! Que mereça o meu sangue e a minha confiança cega?!

É por isso que só cabeças doentes, esguias e viscosas, como os Soares, filhos espirituais do vampirismo-socialista, jacobinada afilhada, gente ajudada, cunhada, metida aqui e ali para mamar pelo favor, arranjismo do Regime, só elas poderiam engendrar a subversão das instituições, a transgressão das regras do jogo democrático, eleitoral, e atirar o País para o lodo. Loucuras e becos que medram em cabeças só capazes da democracia se for a democracia deles, a democracia exclusivamente cubana, exclusivamente norte-coreana.

Quando e se esta maioria coligada for derrotada nas urnas, pronto. Todavia, a seu tempo. Puxar o tapete ao caminho tutelado por Berlim, levantar a mesa e rebelar-nos contra os embaixadores de Bruxelas, armarmo-nos em gregos e bombardear a sede o FMI com uma montanha de manguitos abatendo os seus delegados, pode ser pior enquanto emenda que todo o maldito soneto. Da mesma forma, urdir um golpe de Estado [basicamente agarrar Portas pelos colarinhos ou raptá-lo até romper a coligação] para depois convocar eleições antecipadas chantagistas no plano externo, seria a pólvora seca por excelência, o monumental fim da picada, o descrédito absoluto e total com a garantia de um caminho de austeridade e de morte pelas décadas das décadas. Quando a realidade vai horrorosa, ainda pode piorar. E há sempre um Soares, por interpostos milhares de Miguéis, pronto a disparar para nada.

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