sábado, maio 19, 2012

DO BOLHÃO À TRINDADE

O Porto comove-me. Vejo-o todos os dias como se o visse de novo. Pelo menos esforço-me por abrir os olhos e senti-lo como Cesário a nauseante cidade dele. Tento imaginar como entranham o meu Porto quantos nos visitam e são tantos e tantas ou de queixo erguido, reparando no que deixamos de ver por ser nosso, ou obliquando o olhar a partir dos city sightseeing buses, para observar como são e o que fazem os pequenos portugueses no seu habitat natural. Bolhão. Sigo por passeios, atravessamentos-passadeira. Vou aonde devo ir. O mercado mostra as mesmas pombas e as mesmas gaivotas cativas de sempre, em volutas e tangentes temerárias. Nos telhados interiores — posso espreitar da entrada norte onde há sempre turistas especados a olhar para dentro — as mesmas escorrências esbranquiçadas daquelas cloacas industriosas alvejam o negro da cobertura. De dentro, avulta um pequeno rumor baço de gente. Regresso à marcha. No chão, mil beatas nos interstícios dos paralelos, escarros, espalmadas e negras chicletes. Nem Singapura nem Suíça, somos condescendentes em quase tudo. Desforramo-nos de todos os outros défices civis maltratando o chão. Hoje parece que vai chover. Chove. Mais adiante, crescem à minha esquerda garrafeiras prenhas de suco, escarnecendo-me a sede, do outro lado da vidraça. À minha esquerda, atravessando a estrada, a esquina vem parir-me um mar de queijos e presuntos que acenam, tradicionais, sempre por detrás de janelinhas com rótulos manuscritos esmerados. Trindade. Benevolentes, monumentais, avultam putas camufladas, cozidas com as paredes. Estacam, acenam das esquinas. Nas reentrâncias de pensões, o seu olhar crava-se-me profissionalmente, cigarro em riste, folheando revistas, de cócoras. Uma delas, porque me anzolou aquele olhar casual que eu havia pousado no mostrador dos presuntos-queijo, meneia muito a cabeça num convite velho de milénios. Sorri-me. Tem no esgar invitativo a convicção absentista de alguns dentes, coitada. Amo-a. Amava o Santo de Assis a irmã morte. Deixo-lhe um olhar virginal e refusivo, manso, escorrendo do monte das bem-aventuranças que me mora dentro. Hiper-roliça nas pernas, nos braços e na peitaça ostensiva, cabelo curto oxigenado, passa a matrafona de um ao outro passeios. Àquela hora. Todos os dias. Rotinas. O mesmo vestido cor de zebra. Tem um rebanho ali, a tenente-matrafona. Destino. O mais são passantes, carros que deslizam lentos, olhares tristes, apagados, resilientes, resignados. O céu vai cinza. Hoje choramos. Amanhã a alegria há-de voltar em sardinhadas, campeonatos reconquistados e aclamações espontâneas, ó minha cidade amada.

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