terça-feira, maio 29, 2012

A LÁGRIMA — GUERRA JUNQUEIRO

Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,
Seca, deserta e nua, à beira d'uma estrada.
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Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,
 Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.
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Sobre uma folha hostil duma figueira brava,
 Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,
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A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.
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Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la,
De perto era um diamante e de longe uma estrela.

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Passa um rei com o seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.
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- "No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar,
 Há safiras sem conta e brilhantes sem par,
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"Há rubins orientais, sangrentos e doirados,
 Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.
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"Há pérolas que são gotas de mágua imensa,
 Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.
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"Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir,
 Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir
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"Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,
 Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"
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E a lágrima deleste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.
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Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,
Passa no seu ginete um cavaleiro andante.
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E o cavaleiro diz à lágrima irisada:
"Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!
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"Far-te hei relampejar, de vitória em vitória,
 Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!
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"E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.
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"E assim alumiarás com teu vivo esplendor
 Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!"
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E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.
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Montado numa mula escura, de caminho,
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.
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Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d'oiro.
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E o velhinho andrajoso e magro como um junco,
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,
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Vendo a estrêla, exclamou: "Oh Deus, que maravilha!
 Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha!
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"Com meu oiro em montão podiam-se comprar
 Os impérios dos reis e os navios do mar,
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"E por esse diamante esplêndido trocara
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!"
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E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.
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Debaixo da figueira, então, um cardo agreste,
Já ressequido, disse à lágrima celeste:
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"A terra onde o lilaz e a balsamina medra
Para mim teve sempre um coração de pedra.
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"Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.
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"Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos,
Ouvi trinar, gorgear a música dos ninhos.
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"Nunca junto de mim ranchos de namoradas
Debandaram, cantando, em noites estreladas...
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"Voa a ave no azul e passa longe o amor,
Porque ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!...
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"Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d'água,
Cai na desolação desta infinita mágoa!"
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E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,
Tremeu, tremeu, tremeu... e caíu silenciosa!... 
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E algum tempo depois o triste cardo exangue,
Reverdecendo, dava uma flor côr de sangue,
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Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito,
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito...
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E ao cálix virginal da pobre flor vermelha
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!...
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25 de Março de 1888

1 comentário:

floribundus disse...

Camilo denunciou por escrito um plágio de Junqueiro