LIBERALISMO? LUCRO SEM CONSUMO?

Para além das ideologias e das razões, vivemos numa época que removeu os custos de produção com a mão de obra humana, com o emprego, mediante uma extensiva, convicta e intrincada mecanização geral pela qual se supre largamente a necessidade das pessoas na ordem das centenas de milhões. Os equilíbrios entre o lucro e a humanização do trabalho estão rompidos e corrompidos. Porém, o paradigma do lucro é resiliente porque a sofreguidão por ganho é igualmente uma coisa humana violentíssima e a competitividade norte-americana que, na Europa, até à Crise, se procurava decalcar, não tem contemplações com os choramingas dos incapazes e inábeis para o trabalho como um absoluto, duro, pleno, de preferência escravo e legalmente escravizante. Há duas décadas, falava-se, precisamente por essa antevisão de uma automação-mecanização libertadora, numa Civilização do Lazer, numa espécie de reedição da cidadania grega, a qual, graças ao conforto proporcionado pela escravatura, possibilitava a muitos cidadãos disfrutar da Filosofia, da Matemática, da Retórica e mesmo da Pedofilia como cultura de iniciação a todos campos de saber já referidos e demais domínios próprios da vida adulta, quando o ritualismo religioso se verteu num ritualismo epistémico. Seja como for, hoje o drama é fundo. De modo que soa a pedir a lua este propor que algumas empresas renunciem a parte dos lucros em favor dos postos de trabalho, e pedi-lo logo a um quadro mental nacional de empresariado que se dispõe a alienar precisamente ao lucro a vertente social do trabalho, conforme se tem visto, graças ao apoveitamento oportunista para despedir que a Crise possibilitou. Subrepticiamente, para quem há muito desejava alijar mão de obra, alijando a indústria e o negócio lucrativo ao mesmo tempo, nenhum contexto mais perfeito. Montar o negócio fora pretexto, quantas vezes, para generosas isenções fiscais e ainda mais generosos subsídios estatais. Em face de tudo isto, em vão pregará Frei Jardim. Os donos da enconomia nacional são como os administradores de almas do PS e o respectivo líder Mugabe Armani: nasceram tortos, tarde ou nunca se endireitarão. O lucro, ou seja, o empreendedorismo liberalóide lucrativista e as suas lógicas de um ganho inteiramente devido ao próprio mérito e não também devido ao concurso de variadíssimos factores aleatórios, como não tem ideologia que o caldeie de social e de solidariedade coesiva, como também não tem valores morais que o fundamentem, redunda na devastação a que se assiste e que se vai aprofundando. O curioso é que o circuito-lucro está condenado precisamente por se estancarem quaisquer possibilidades de consumo que o alimente. Derradeiramente, alguém ou alguma coisa terá de ceder antes que o colapso e o caos sejam completos: «O presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, apelou hoje aos empresários para que cortem nos lucros em vez de dispensarem trabalhadores, de modo a manter minimamente vitalizado o mercado interno através da sustentação do poder de compra.“O esforço mais inteligente é reduzir nos lucros sem dispensar pessoal”, disse o governante madeirense na inauguração das novas instalações da empresa Lubrimade, representante da BP na Região – que investiu 650 mil euros nas suas novas instalações na Madeira.Referindo-se ao actual contexto de crise económico-financeira, Alberto João Jardim lançou um “grande apelo” aos empresários estabelecidos na Madeira para que, “tanto quanto possível, ainda que com forte sacrifício para a empresa ou empresário, que será de um a dois anos, não mais do que isso, se mantenham os postos de trabalho, porque só assim é que se tem possibilidade de passar ao novo ciclo económico”.Alberto João Jardim considerou ser importante manter o poder de compra da população, ainda que com alguma redução, para que a economia, no seu geral, se ressinta o minimamente possível.»
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Que sentido faz dizer que o país não tem dinheiro para construir novas estradas se essas sairiam a custo zero se a Brisa e a Lusoponte reinsvestissem os lucros patéticos que obtêm... ou se fossem empresas nacionalizadas.