DA CORRECÇÃO SEXUAL FRANCESA

Se o governo francês recomendasse orgias sexuais aos seus cidadãos para aumentar a euforia, o bem-estar e a correlata produtividade laboral, eu não me indignaria com o governo francês. Só estranharia a ingerência recomendacionista na vida íntima de todos, como uma bizantinesca e ridícula filosofia do sal no pão. Isso não influenciaria as minhas práticas e opções sexuais e as minhas formas de aceder a uma legítima e lícita euforia, assim como ninguém influencia as minhas práticas gastronómicas [ultimamente à base de pão com pão, fome com pão e pão com fome]. É por isso que as afirmações papais que subestimam o preservativo como remediador do alastramento das DST são correctas de um ponto de vista meramente espiritual e moral de exigência e disciplina interior, e no mínimo discutíveis no plano sanitário, área sobre a qual a Igreja tem nula tutela, porque sobre ela a têm todos os governos assim como lhes cabe agir coordenada e organizadamente para estancar o problema. A hipocrisia também anda globalizada, assim como a correcção sanitário-sexual, e a única fonte de coerência interpessoal e de exigência espiritual, anacrónica ou não em algumas traduções práticas, que a Igreja representa, Ela, que para todos os efeitos foi a grande precursora de todas as globalizações, merece de imediato insurgências de bom tom da parte de governos os quais, consta!, não resolveram por si sós um só problema da humanidade, mas criaram imensos, e se os desejam resolver não será com a impotência perante o Darfur e outras marcas de disfunção diplomática ou bélica ocidentais: «O Governo francês criticou hoje as declarações do Papa contra o uso do preservativo, mostrando-se “muito preocupada” com a posição defendida por Bento XVI antes de aterrar nos Camarões, onde começou ontem uma visita a África. [...]Duas capitais europeias, Paris e Bruxelas, reagiram oficialmente. “A França exprime a sua viva preocupação quanto às consequências das declarações de Bento XVI”, disse hoje um porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Eric Chevalier. “O nosso papel não é o de emitir julgamentos sobre as doutrinas da Igreja, mas consideramos que estas observações põem em risco políticas públicas de saúde e os imperativos quanto à protecção da vida humana”, relata a agência Reuters.»
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