sábado, março 17, 2012

PARQUE ESBULHAR

«Sem surpresa, muitas obras foram feitas sem integrar a experiência e as reais necessidades locais, antes promovendo a megalomania das direcções regionais da Educação, porventura as mais partidarizadas estruturas do ministério. Também sem surpresa muitos responsáveis escolares receberam com as estruturas novinhas em folha facturas de electricidade incomportáveis pelos orçamentos que tinham de gerir (as contas da luz triplicaram, revelou o inquérito da IGF). Alguns gastos sumptuosos não só engordaram as facturas (a IGF fala, por exemplo, de madeiras nobres e de pedras naturais em instalações sanitárias) como até trouxeram problemas novos (muitos dos estores eléctricos utilizados avariaram pouco depois de entrarem ao serviço). O modelo de financiamento também se revelou totalmente inadequado. Foi mais uma artimanha orçamental: a PE não utilizou apenas fundos europeus, também teve de se financiar junto da banca, e os custos desse processo de endividamento recaem hoje sobre o Ministério da Educação, obrigado a pagar rendas não só pelas escolas recuperadas, como por edifícios que ocupava há décadas, como os da 24 de Julho em Lisboa. Foi mais uma conta que se passou para as gerações futuras pagarem, uma espécie de PPP com outro nome. Nada disto parece, no entanto, incomodar todos os que, na bancada do PS, mas não só, têm estado empenhados em defender a “herança dos governos de Sócrates”, como se estes métodos e este tipo de gastos sumptuários fossem defensáveis. E uma das razões porque isso sucede é simples: muitos em Portugal não sabem imaginar o Estado senão através de estruturas centralizadas, bonarpartistas, levando a cabo o trabalho “iluminista” de resgatar o país do breu da ignorância, para tal não conhecendo limites orçamentais ou financeiros. A alternativa, um sistema educativo aberto, descentralizado, onde as escolas estatais concorressem entre si e com as privadas para o fornecimento desse bem público que é a Educação, um sistema onde localmente se determinariam as necessidades, incluindo as relativas a obras de recuperação ou alargamento, serviria melhor as famílias e seria mais económico. Mas como, mesmo com mais economias, os velhos hábitos nunca morrem, a Parque Escolar lá continuará – só se lhe muda a administração…» José Manuel Fernandes, Público, 16, Março, 2012

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