sexta-feira, março 23, 2012

TU QUOQUE, VASCO, MEU FILHO?

Nem sequer Vasco Pulido Valente parece perceber que, com Sócrates e os seus, não estamos a falar de trocos nem de venalidades recorrentes e coisas habituais na política de sempre. Se assim fosse, «em teoria», poderíamos dormir descansados. Mas não. Ali nunca se olhava para as pequenas massas e as insignificantes bagatelas. Foi cavar dívida como se farta a vilanagem sem amanhã. Custa a engolir que até o Vasco põe a mão por baixo ao grosseiro comissionismo inveterado daquela governação danosa. Se até esse profético intérprete da decadência portuguesa não vê propósito no entregar aos Tribunais o que transcendeu largamente os foros estritos da Política, então não há esperança para a respectiva limpeza exemplar. Se se não percebe a diferença entre pecadilhos, tropeções involuntários por aliciamento alheio, que é uma coisa, de associação criminosa e reincidência de processos corruptos com impacto crasso sobre a vida de milhões, que é outra, para que serve colocar o dedo na ferida, escrevendo crónicas, e gritar que o rei vai nu? Se se não perdoam roubos a bancos porque se hão-de perdoar assaltos continuados a Estados e a milhões de contribuintes?! Não. Definitivamente não estava à espera de este tipo de indulgência na verve habitualmente viperina do Vasco. Devo ser mesmo muito ingénuo: «Já não bastava o “caso Freeport” e o “caso Face Oculta”, a investigação judicial do Governo Sócrates continua. E pior: aumenta. Não espanta que o cidadão comum tenha sido contra o Governo de Sócrates — que não se distinguiu pela sensatez, pela tolerância ou pela lisura; e que levou o país para a crise mais séria por que os portugueses passaram desde 1975. Como não espanta que as dores do presente (que são muitas para muita gente) não deixem de alimentar uma Vasco Pulido Valente execração profunda pelo antigo primeiro-ministro e pela sua gente. Mas nada explica que a Procuradoria-Geral da República e os tribunais tomem sobre si o encargo de fazer justiça em matéria política: um serviço que obviamente lhes não compete e que, levado ao extremo, pode alterar o equilíbrio constitucional da República. Em poucos dias soubemos pelos jornais que a Procuradoria-Geral da República se prepara para abrir um inquérito-crime a 14 ministros de Sócrates por peculato e abuso de confi ança, “em seguimento” a uma queixa da Associação Sindical de Juízes. Soubemos também ontem, ou anteontem, que a sra. dra. Cândida de Almeida declarou na TVI que foi entregue (presumivelmente no DCIAP) uma segunda queixa contra o próprio Sócrates, por favorecimento pessoal e falsifi cação de documentos, ainda por causa da famigerada licenciatura do homem. E, para acabar (pelo menos, por enquanto) uma terceira — esta anónima — contra o ex-ministro Manuel Pinho, por suspeita de conceder à EDP “rendas” sem justifi cação económica ou benefício para o Estado. Estamos no princípio e é um péssimo princípio. No caso dos 14 ministros, os factos que se alegam parecem ao leigo de pouca ou nenhuma gravidade: uso indevido de cartões de crédito, de telefones de uso pessoal, de despesas de representação e de subsídios de residência. Uma insignifi cância no mar de dívidas que Sócrates nos legou. O mesmo vale para a existência ou inexistência da licenciatura de um indivíduo morto para a vida pública portuguesa. No meio de uma ou duas coisas hipoteticamente graves, o que fica é um inconcebível ressentimento e uma inconfundível vontade de retribuição. Ora, se o país por acaso alimenta esses duvidosos sentimentos, a Assembleia da República (que o representa) deve falar por ele e o braço judicial, em teoria, não se deve mexer. Sobretudo quando se arrisca a arruinar, sem um bom motivo, uma vida limpa ou só com alguns pecados veniais, cometidos por ignorância ou inadvertência. A política não se “limpa” assim.» Vasco Pulido Valente

1 comentário:

floribundus disse...

'está cada vez mais na mesma'

pode ir para o jardim jogar com o filho do tareco